terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O horário comercial já era, diz pesquisa

Tenho que confessar que esse é um papo chato, porque sempre caímos na mesma sarjeta, mas a pesquisa publicada pela Regus no mês passado comprova algo que nós, trabalhadores, já temos sentido na pele nos últimos tempos: o horário fixo de trabalho, chamado comumente de "horário comercial", já era. Não existe mais.

A pesquisa resume o feedback de mais de 12 mil profissionais de 85 países. Mais da metade dos trabalhadores do Brasil afirma que trabalham além das 8 horas diárias e mais de 40% levam trabalho para casa. Se a pesquisa fosse feita comigo e com as pessoas com quem me relaciono diariamente, certamente os números seriam ainda maiores.

O press release (infelizmente não foi disponibilizado o estudo com mais detalhes) aponta os seguintes resultados:

43% dos profissionais no Brasil trabalham de 9 a 11 horas por dia. 38% é o percentual no restante do mundo;

17% dos trabalhadores no Brasil e 10% em outros países trabalham mais de 11 horas por dia regularmente;

No Brasil, 46% dos profissionais levam trabalho para casa, mais de 3 vezes por semana. O índice global é 43%;

Profissionais remotos em todo o mundo estão mais propensos a trabalharem 11 horas por dia (14%) do que os funcionários em escritórios fixos (6%). Os remotos também levam mais trabalho para casa (59%), do que os trabalhadores com local fixo de trabalho (26%);

No Brasil o sintoma se repete.
59% dos profissionais remotos em nosso país levam trabalho para casa com mais frequência do que os funcionários com local fixo de trabalho (22%);

Existe uma outra pesquisa interessante da Regus que indicou novos aspectos a respeito dos profissionais que trabalham em locais remotos, especialmente em casa. Confira AQUI.

Esclareço que trabalhar remoto significa que o profissional não tem um local fixo de trabalho na empresa contratante. Ou seja, ele pode trabalhar de forma itinerante, nas instalações de um cliente da empresa (situação comum em empresas prestadoras de serviços), num escritório terceirizado (não sabe o que é isso? veja AQUI) ou até mesmo em casa.

Acho que o estudo não traz grandes novidades, apenas comprova a frustração de algumas tendências que já são mais fatos do que propriamente tendências. Isso tudo é muito chato, se considerarmos que nós seres humanos, que gostamos de família e vida pessoal, estamos no meio desse turbilhão. Eis algumas conclusões que tirei do estudo juntando com outras coisas que passaram na minha cabeça:

1- As empresas estão menos preocupadas com o horário de trabalho e muito mais focadas nos resultados. Portanto, esse negócio de controle de horário de trabalho será cada vez menos importante;

2- Os trabalhadores já entenderam o recado e estão abrindo mão de seu tempo pessoal para se desenvolver (estudar mesmo!), melhorar sua performance profissional e entregar resultados para as empresas. Ou seja, estamos todos trabalhando mais horas por dia, inclusive nos finais de semana;

3- O fim de uma fronteira clara entre trabalho e vida pessoal está nos transformando em seres mais ansiosos e estressados. Soma-se a isso a era da sociedade conectada em tempo real, 24 x 7. A pressão por resultados e a velocidade incrível das coisas está criando uma geração de cansados, frustrados e deprimidos, já que cada vez mais os trabalhadores exigem mais de si mesmos.

4- Para as empresas, o trabalhador remoto parece ser bom por vários motivos: reduz custos, diminui a preocupação com infra estrutura, viabiliza o uso flexível de recursos sob demanda, muitas vezes possibilita a empresa contratar mão de obra mais barata e por aí vai.

5- Trabalhar em casa de vez em quando (algumas horas ou dias por semana) já é uma realidade para muitos trabalhadores e empresas. Essa é uma contra partida que muitos trabalhadores estão pedindo nessa difícil equação de mais horas por dia de trabalho. A maioria dos funcionários aprecia a possibilidade de trabalhar em casa quando possível;

6- Quem trabalha em casa sofre com uma terrível indefinição entre os limites do trabalho e a vida pessoal. Sensação muito maior do que aqueles com local fixo de trabalho na empresa.

7- Quem trabalha em casa normalmente trabalha mais horas do que dentro da empresa. Por outro lado, a sensação de proximidade da família e a possibilidade de administrar seu tempo com maior independência, fazem tal profissional se sentir mais satisfeito com o resultado de seu trabalho, apresentando níveis menores de estresse.

8- Muitos trabalhadores não gostam da ideia de trabalhar em casa e colocam obstáculos. Profissionais que pensam assim preferem trabalhar junto aos seus colegas de trabalho, dizem querer sentir o clima da empresa e fazer parte da equipe. Sentem medo de se sentirem excluídos e perderem oportunidades de carreira. Além disso, alegam que querem acesso às tecnologias e recursos que não estão à sua disposição em casa. Alguns também dizem que trabalhar dentro da empresa permite maior concentração em suas tarefas diárias.

9- Obviamente que o horário fixo de trabalho ainda vai continuar existindo para vários segmentos de profissionais, como por exemplo aqueles que trabalham no comércio físico (lojas com horário para abrir e fechar) e alguns setores fabris. Mas mesmo nesses segmentos, a pressão em cima dos profissionais para se desenvolverem é muito grande, o que pressiona tais trabalhadores para estudarem após o horário de trabalho e até no final de semana, não só para se desenvolverem, mas por necessidade de preservarem os próprios empregos. Quem não se desenvolve tem sérios problemas de continuidade no trabalho.

10- Falando em trabalhar remoto, quer conhecer a experiência de alguém que tem uma boa história para contar sobre home-office? Veja AQUI.

Enfim, é o mundo girando e em transformação.

Texto publicado no blog da CRN

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5 comentários:

tatirlima disse...

Sabe, Mauro, fico pensando se essa realidade de quase 12 horas no trabalho é coisa das grandes capitais. Se no interior também é assim. O que acha?

Mauro Segura disse...

Puxa, não sei dizer. Mas tenho a impressão que o fenômeno independe da geografia. Estamos todos nos sentindo mais pressionados e angustiados. Obrigado por colaborar com o blog :) abcs Mauro.

Daniela disse...

Olá Mauro!
Muito bom o seu post de hoje.... além dos pontos que você colocou, eu fico pensando em como nós brasileiros de certa maneira ainda somos privilegiados. Explico: eu não sei a fundo, mas não sei de outros países que tenham leis trabalhistas que quase mimam (para exagerar um pouco) os trabalhadores. Onde mais há 30 dias de férias, seguro desemprego, etc garantidos?
Hoje, nossos principais concorrentes de trabalho diretos pertencem à mesma empresa que a nossa, com a diferença de estarem em diferentes partes do globo... onde talvez manter um trabalhador seja bem menos oneroso.
Acho muito difícil para os governantes mudarem a realidade das leis trabalhistas no Brasil, afinal, perderiam muitos votos. Mas, por outro lado, até quando conseguiremos manter nossos empregos se não nos adequarmos à dureza que a competição global impõe?
Deveria eu, que prezo muito pelas minhas férias, 13o etc, e sonho em parar nas 12 ou 13 horas de trabalho por dia, procurar uma vaga no comércio?

Anônimo disse...

Estes resultados vão ter implicações importantes. Algumas leis e práticas de gestão de trabalho precisarão ser revistas de forma urgente.
Abs

Arthur Bichmacher disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
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