segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Hare baba! O que fazer quando um empregado espinafra a empresa numa mídia social?

Repito o meu último post e acrescento meus comentários.

Imaginem a seguinte situação passada dentro de uma empresa...

É publicada uma matéria na intranet falando sobre uma ação importante realizada pela empresa que tocou a sociedade e o governo. A empresa considerou aquela iniciativa estratégica e relevante para os seus negócios, com impacto muito positivo no mercado. Foram publicadas fotos do encontro dos executivos da empresa com autoridades da sociedade e do governo nos veículos internos de comunicação.

Dias depois, num blog desconhecido, é publicado um post reproduzindo em parte o texto da matéria da intranet. Uma foto, também retirada da intranet, foi copiada. O conteúdo do post é positivo e negativo, ao mesmo tempo. Por vezes é irônico, com um tom negativo, citando que aquilo era coisa de "engravatados arrogantes". Outras vezes elogiava a empresa, dando uma boa dimensão do fato e das consequências. Ou seja, o texto variava entre uma mera citação, até positiva, e uma crítica contumaz. Pesquisando um pouco mais, descobriu-se que o blog era um blog pessoal de uma empregada muito jovem da empresa, algo como um diário pessoal, que comentava fatos cotidianos da vida, com pontos de vista diversos. Em resumo, o post nada mais era do que a visão pessoal de alguém sobre um fato.

O que fazer? Qual seria sua atitude se você fosse o gestor da empresa?

Antes de tudo, esse caso é real e bem recente.

As respostas para essas questões são sempre difíceis. Não existe resposta certa, afinal somos todos aprendizes nessa nova sociedade digital. A ação da empresa vai depender muito da cultura corporativa, do nível de abertura e transparência que existe internamente.

Minha avaliação é que, no caso acima, a funcionária cometeu dois erros. Um de violação de regra e outro de atitude. O primeiro é inquestionável, já o segundo pode ser motivo de controvérsia.

VIOLAÇÃO DE REGRA
O primeiro erro foi ela pegar a informação e a foto publicadas na intranet da empresa e postar em seu blog pessoal. O correto seria entrar em contato com a empresa para pedir autorização para usar esse material. O acidente torna-se menos grave pois o conteúdo postado não era um material confidencial. Mas, independentemente disso, ela não poderia fazer um "copiar e colar" sem consultar antes.

ATITUDE
O segundo erro foi de atitude. Aqui entendo que o terreno é arenoso pois sempre existirão opiniões e percepções diferentes. Concordo com o que Zee Lima escreveu no comentário do meu post anterior. Não me parece razoável que uma empresa demita um funcionário por ele ter expressado suas opiniões num bar, entre os amigos, mesmo que essa opinião não esteja 100% alinhada com o que a empresa pensa. O mesmo conceito se aplica quando a pessoa se expressa num blog pessoal. É claro que podem haver casos extremos, como publicar algo confidencial, xingar a mãe do presidente ou falar que o chefe é isso e aquilo.
A forma como a funcionária escreveu e se posicionou em seu blog pessoal evidencia uma pessoa que parece estar insatisfeita com seu trabalho, que não concorda integralmente com as ações e os valores da empresa. A atitude equivocada da funcionária foi publicar sua opinião a respeito da empresa em seu blog pessoal, sem antes conversar com seu gerente a respeito, que seria o movimento correto para ela expressar suas divergências.

LIBERDADE DE OPINIÃO E SUAS CONSEQUÊNCIAS
Conceitualmente falando, qualquer um de nós tem liberdade para opinar e apresentar nossos pontos de vista, seja na rua, num papo com amigos ou num blog pessoal. O importante aqui é cada um assumir a responsabilidade do que escreve, e consequentemente assumir os ônus e bônus. No momento em que a funcionária escreve seu pensamento num blog público, ela está assumindo uma posição e uma postura diante de todos, inclusive da própria empresa, que certamente vai avaliar tal comportamento de sua funcionária.

TODO FUNCIONÁRIO É REPRESENTANTE DA EMPRESA PERANTE A SOCIEDADE
Aqui cabe mais uma observação importante. O compromisso e a cumplicidade do funcionário com determinada empresa não termina quando ele sai do trabalho no final do expediente. Para todos os efeitos, mesmo fora das paredes da empresa, ele continua sendo funcionário e, portanto, continua sendo um representante da empresa na sociedade. É esperado que ele defenda e preserve os interesses e valores onde trabalha. Falar mal da empresa em público não faz sentido. Ironizar a empresa num blog aberto, ainda mais pessoal, não é razoável. Além disso, o que ela escreveu em seu blog pessoal mostra o tipo de papo e conversa que ela tem com amigos no ambiente do trabalho, seja no cafezinho ou nos corredores da empresa. A ironia mostrada no texto coloca em check o quanto que ela acredita na empresa para seu futuro profissional.

O PAPEL DO GERENTE IMEDIATO
No caso acima, ao identificar que a funcionária agiu equivocadamente, o gerente tem que exercer o seu papel, entendendo a situação e orientando-a. Acredito que uma conversa franca e transparente é a melhor ação que um gerente pode tomar.

A CABEÇA DA GERAÇÃO Y
A nova geração Y é formada pelos nativos digitais. Eles cresceram falando de forma aberta e transparente. São brasileiros que nasceram na democracia, que olham uma imprensa livre, rigorosa e até irônica com o governo. Toda essa ousadia na hora de expor faz parte da formação pessoal desses novos cidadãos e trabalhadores. Portanto, questionamento e enfrentamento são características inerentes a esta nova geração. Eles nasceram assim. E nós, como pais dessa nova geração, incentivamos esse comportamento diariamente quando assistimos TV e reclamamos do governo, da insegurança nas ruas, do sistema da saúde e todos os dilemas da sociedade. Os filhos apenas se miram na gente.
Dou toda essa volta para dizer que as empresas terão que aprender a lidar com a geração Y e suas características. Essa curva de aprendizado poderá ser mais acelerada ou mais sofrida de acordo com o perfil adotado pelas empresas. Não acredito que a geração Y vai mudar. As empresas têm que saber ouvir mais, entender que virão opiniões duras e irônicas dos seus jovens colaboradores. Por outro lado, os jovens terão que ter mais consciência do que falam e escrevem, terão que honrar as suas opiniões e eventualmente sofrerem perdas ou penalidades pelos seus atos.
Convido a visitarem o blog Foco em Gerações para lerem dois posts: um escrito pela Eline Kullock da geração Baby Boomer e outro pela Liliane Fonseca da geração Y (clique nos links).

SOCIAL COMPUTING GUIDELINES
Toda empresa que pretende se aventurar nas mídias sociais tem que se preocupar em estabelecer algumas regras. Por exemplo, a IBM publicou em 2005 um conjunto de normas chamado “IBM Social Computing Guidelines”, que contempla princípios e instruções a respeito da criação, uso e etiqueta de blogs, wikis, redes sociais, mundos virtuais e mídia social em geral. Clique AQUI para acessá-lo. Mas não basta ter regras, tem que divulgá-las, aprimorá-las e discuti-las. Esse é um passo fundamental para toda empresa que começa a entrar nesse mundo. Mesmo na IBM, que é uma empresa onde o tema é conversado intensamente, ainda continuamos com o desafio de fazer os funcionários conhecerem e exercerem esses guidelines.

O QUE FOI FEITO
Por fim, para fechar o post. Eis as ações que foram tomadas:
- A área de comunicação entrou em contato com a funcionária e informou que ela não poderia usar ou reproduzir textos e fotos de matérias publicadas na intranet sem autorização prévia;
- Ela foi alertada que, semanalmente, as citações a respeito da empresa publicadas na imprensa e em blogs são selecionadas e incluídas num relatório que é enviado para o time executivo. Recomendou-se que ela repensasse a forma como escreveu o post pois ele seria repassado integralmente para a audiência citada;
- Por fim, foi sugerido que refletisse melhor sobre o que escreveu, pois a ironia do conteúdo evidenciava que ela não concordava com as decisões e os valores da empresa. Também foi lembrado que seu blog poderia ser lido por seu gerente imediato, colegas de trabalho e até executivos da empresa;
- O gerente imediato foi informado do fato.

Ela atendeu e entendeu bem. Em 15 minutos o post foi deletado. Hare baba!!!
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14 comentários:

Zee Lima disse...

Muito, muito bom!

Estava ansioso para saber o desfecho da situação, e olha, foi excelente!

Gostei da forma direta e sóbria que os vários pontos que envolvem a questão foram colocados. Com certeza eles nos ajudam a refletir sobre a relação daquilo que falamos com aquilo que fazemos, pensamos, cremos e sentimos.

Indo nesse sentido indico uma fonte extremamente gabaritada no assunto Geração Baby Boom e Integralidade: Ken Wilber.

O livro "Boomerite: um Romance que Tornará Você Livre" que é bem divertido e apresenta todo o trabalho de Wilber de forma simples e direta, é um ótimo começo para quem gostaria de se aprofundar nesses assuntos.

Abraços!

site:http://www.kenwilber.com/home/landing/index.html

A Bordo disse...

Muito bom o post.

Faço post de empresas brasileiras, sempre procuro a integridade e informações que já apareceram na mídia, mesmo que conheço o funcionário da empresa, converso somente imparcialmente, para entender a organização.

Temos que ter ética, é o principal para um bom relacionamento.

Adorei o blog, estou seguindo e acompanharei sempre.

Abraços,
Cibele
(A Bordo)

Luiz Carioca disse...

pra pensar...

Agora imagine o que acontece dentro de uma revista "que se diz falar a verdade" e que tem como patrão grandes empresas anunciantes.

Acho que é o mesmo caso, salvo as proporções.

É essa a liberdade que a imprensa do Brasil tem hj.

Ocappuccino disse...

mas se a conduta da funcionário nas redes sociais é similar à conduta interna na empresa no relacionamento com outros colegas (como foi citado no post) é correto ela continuar trabalhando em uma empresa na qual não acredita nas ações realizadas?

abraços, mateus

Mauro Segura disse...

Mateus,
É verdade. O que ela escreveu no blog pessoal dela provavelmente demonstra o tipo de conversa que ela tem a respeito da empresa com os colegas e amigos. Isso me parece negativo, mas será que é suficiente para demiti-la? Eu acho que não. Não dá para avaliar alguém por uma escorregadela num blog. Acho que isso é papel de seu gerente imediato, que tem que avaliar e tomar a decisão que for mais adequada. Se existirem outras evidências além do blog, aí a situação fica mais clara. Muitos me chamam de exageradamente flexível e tolerante, mas eu acho que esse é um caminho correto. Para termos pessoas abertas e questionadoras trabalhando conosco, precisamos ser pacientes a cada minuto, entender os diferentes pontos de vista e compreender que a nova geração tem um "mindset" diferente. Grande abraços para você. Mauro.

Marcia Ceschini disse...

Mauro,

eu fico entre concordar e não com a postura da empresa.
Sim, a funcionária não podia copiar e colar uma informação interna... e o fato deveria ser um momento para melhorar o nível de comunicação com os funcionários e ouvi-los, saber o porque do descontentamento.
Mas a saída foi democrática. E tbm faço o mesmo questionamento do Matheus, se o nível de discordância entre seus pensamentos e a postura da empresa for alto demais, comece a buscar outras empresas que esteja em sintonia com suas crenças corporativas.
E seu blog é sempre uma aula.
Abraços

Mauro Segura disse...

Pois é Marcia. A situação não era simples mesmo. Não existia uma tomada de decisão evidente. Obrigado pelos elogios exagerados... rsrsrs. Bjs. Mauro.

Zee Lima disse...

Olá a todos!

Só pra colocar um pouco mais de lenha na fogueira, sobre o comentário do Mateus, eu coloco a seguinte questão:

Pensando na classe social da funcionária, e no padrão de pensamento (ou paradigma) em que ela esta inserida; não é comum as pessoas trabalharem por obrigação?

O trabalho é realmente visto como forma de expressão, ou ainda figura como um "mal necessário", uma "labuta contínua e sem sentido"?

E indo por este lado, extendo as classes sociais com este padrão de pensamento. Quantas pessoas não abraçam a idéia de que "somos guerreiros, cujo suór constroi o País" em vez de algo como "meu trabalho é a expressão de quem sou, e no coletivo, guiado por uma ética constroi um País"

Com tudo isso em vista, ela não agiu em conformidade com sua experiência de vida?


Forte Abraço!

Mariana disse...

É uma situação complicada mesmo e acredito que a maioria das empresas não aceitaria o comportamento e já demitiria essa funcionária.

Por isso acho importante um canal de comunicação interna eficiente, mesmo que anônimo, para a gerência conhecer os pontos de vista dos funcionários e todos trabalharem em sintonia.

Abraços

Mauro Segura disse...

Zee Lima. Entendo o seu ponto e acho que você tem razão. Nesse contexto, temos que considerar a classe social da pessoa, o perfil da empresa, o tipo de trabalho, etc. Concordo que existem muitas situações onde as pessoas sentem que o trabalho é um "mal necessário" e não uma verdadeira realização profissional. Dependendo desse contexto, a decisão da empresa pode mudar radicalmente no caso acima. Esse é um excelente ponto e que tem que ser considerado. No caso citado por mim no post, eu posso garantir que ele não entra no cenário citado por você. Abraços e obrigado por participar do blog. Mauro.

Anônimo disse...

Mauro, gostei muito do seu blog. Fica apenas uma boa dica. Sempre que vejo uma matéria ou site que interessa, copio e colo e envio à um grupo de e-mail que mantenho. Nele estão cadastrados amigos e conhecidos aos quais escrevo algumas resenhas ou recomendações de sites. Bem... a dica é que você coloque um link ou uma página com as dicas para quem quer copiar e colar do seu site.

ahhhh eu sempre coloco o autor e a fonte de onde foi tirado. e quando me enviam material, sempre pesquiso para saber se é da fonte mesmo.

Cacá Azevedo disse...

Adorei o título!

Mauro Segura disse...

Cacá. Gostou só do título? rsrsrs...

Anônimo disse...

Muito boa a matéria e serve de alerta a muitos. O que me intriga é justamente esta "pseudo"liberdade", bandeira levantada pela sociedade jovem. Não sou contra, mas existem regras e regras.
Vejamos esta situação. ela acaba do mesmo jeito que começa,e apenas gera stress desnecessário a todos. Principalmente para a empresa, que tem que ter pessoas para reverter um quadro que não existia, por uma opinião, que apenas existia para esta funcionária - isto é o que mostra o relato.

Toda empresa tem seus problemas, assim como qualquer funcionário tem o seu também. Com a internet, a "fofoca" saiu do cafezinho e ganhou laptops... e o mundo.

Perguntem a esta funcionária se ela se sentiria confortável ao comentarem algo com o mesmo conteúdo, mas de cunho pessoal em algum Blog ou site da própria empresa, ou seja, o sentido inverso.

A verdade é que, ém uma empresa, um departamento (como o Marketing por exemplo) tem que deixar bem claro regras de conduta na Web, o que não daria margem, caso de desvio, de qualquer outra decisão a não ser a famosa "justa causa".

Errou a empresa e errou a funcionária. Enquanto não houver uma política muito bem definida, como existe em várias empresas, sempre existirá desavenças.

É o preço que as empresas pagam por pagarem pouco (culpa também do Estado, e aqui leia-se impostos), e por insistirem em pessoas inexperientes que tem a internet como única fonte de amizades.

Abraços a todos!

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