sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A sala de aula vista por um adolescente – Entrevista 1

O mundo passa por grandes transformações, a comunicação e a internet mudam radicalmente a forma como nos relacionamos e fazemos negócios, nada mais natural do que discutir o velho ambiente das salas de aula. Em época de colaboração intensa, parece que o tradicional modelo da aula expositiva, em que o mestre fala e os alunos escutam, está com os dias contados. Será mesmo?

Encucado com isso, conversei com dois adolescentes (ou nem tanto, pois ambos têm mais de vinte anos e estão na universidade) sobre como eles veem a sala de aula.

Um deles está insatisfeito com o curso, carrega as aulas como um fardo e encara a sala de aula com muito sacrifício. Já o outro adora estudar, está fazendo mestrado, é um curioso “by design”, não sofre com a sala de aula, mas mesmo assim, não se mostra um entusiasta com o ambiente da universidade.

Criei dois nomes fictícios, Sérgio e Alex. Obviamente, não podemos generalizar, pois são apenas duas pessoas dando sua percepção individual, mas é interessante analisar. Ah, importante frisar que eles não estudam na mesma turma.

Eis a primeira entrevista, a segunda será publicada no próximo post (amanhã):

Mauro – Como você avalia a sala de aula?
Sérgio – A sala de aula é um lugar muito chato. E não é só a minha opinião, todos os meus colegas têm o mesmo sentimento. Eu acho incrível que alguns professores ainda usem quadro negro (lousa em Sampa!!) e giz. Tem um professor de 70 anos de idade, o cara é muito metódico, tradicional, já vem com a aula montada e não se importa com os alunos. Usa o powerpoint e parece que faz a aula para as paredes. Ninguém presta atenção.

Mauro – Mas, se ninguém presta atenção, o que rola nas aulas?
Sérgio – A maioria do pessoal traz um monte de gadgets para dentro da sala de aula, como celulares e notebooks. E não é para usar na aula, é para se distrair mesmo. O pessoal fica navegando na internet e faz outras coisas enquanto o professor fala. Também é comum ver os alunos tirando foto do quadro negro com máquina fotográfica e celular, o que mostra a preguiça e a chatice dentro da sala. Poucos usam realmente o notebook e os celulares para fazer anotações ou pesquisar, a maioria usa para ficar na internet durante a aula.

Mauro – Então isso é liberado dentro da sala?
Sérgio – Sim. A PUC inteira tem wi-fi grátis para os alunos. Qualquer um pode abrir o notebook e usar livremente.

Mauro – Os professores ficam chateados?
Sérgio – Não sei. Acho que não. Todo mundo faz isso. Eu nunca vi um professor pedindo para fechar um note ou parar de usar um gadget. Eles já se acostumaram.

Mauro – E os celulares tocam durante as aulas? O pessoal desliga os aparelhos?
Sérgio- Nunca vi ninguém desligar o celular. Mas quem desliga hoje em dia? O pessoal coloca no silencioso, mas às vezes alguém esquece. Quando o celular toca, as pessoas saem da sala para atender.

Mauro – Então ninguém presta atenção?
Sérgio – Não é bem assim. Tem aulas que são boas, mas são poucas. Eu me identifico mais com um professor mais novo que se veste de forma mais despojada, dá uma aula menos estruturada e principalmente conversa com os alunos. Isso faz a aula ficar mais legal e o pessoal presta mais atenção.

Mauro – Vamos ver se eu entendi. As aulas expositivas são chatas e desinteressantes. A desatenção é geral. As melhores são as aulas interativas, onde o papo rola mais desestruturado e solto. É isso?
Sérgio – É isso mesmo.

Mauro – Você falou que este professor que você gosta se veste de maneira despojada. Pegando o gancho, o pessoal fica a vontade dentro da sala?
Sérgio – Sim. O pessoal fica largado nas cadeiras. O absurdo é que tem professor que proíbe botar o pé em cima da mesa.

Mauro – Se rola este clima à vontade, como fica o horário?
Sérgio- A maioria das aulas começa atrasada, porque o professor chega tarde ou porque não há alunos dentro da sala. É muito comum. Algumas vezes eu mesmo cheguei na sala e ao ver que estava vazia e que eu seria o primeiro a entrar, desisti e fui embora.

Mauro – E os trabalhos? Tem muita carga de trabalho?
Sérgio – Acho que tem muita. Mas a gente encontrou uma forma de facilitar. Alguns alunos criaram uma pasta compartilhada no site dropbox. E, escondido dos professores, todos compartilham trabalhos antigos e atuais, matérias relacionadas e colas em geral.

Mauro- Quer dizer que o pessoal vai no site dropbox e baixa trabalhos já feitos e entrega para os professores como se fossem novos?
Sérgio- Isso mesmo.

Mauro- E a cola rola durante as provas?
Sérgio – Nas provas que podem fazer consulta, os notebooks são permitidos. Isso faz com que todo mundo se fale à vontade pelo MSN, por alguma rede social ou qualquer outro meio que todos possam se conectar. E nem precisa ter internet, porque os notebooks e gadgets permitem se falar por bluetooth. Mas acho este negócio de prova muito velho, acho que os trabalhos deveriam ser todos em grupo.

Mauro- Os professores usam e-mails ou redes sociais para conversar com a turma fora do horário de aula?
Sérgio- Quase todos os professores interagem com os alunos através de e-mails. Eles mandam para a turma inteira de uma vez só, através do sistema da PUC. Todos os trabalhos são entregues por e-mail, poucos são entregues impressos.
Mauro- Depois disso tudo que você me contou, você acha que a sala de aula deveria terminar? Você acredita em aula remota?
Sérgio- Não existe impedimento tecnológico para que as aulas sejam remotas, porém, se isto acontecesse, acho que o interesse e rendimento dos alunos iriam cair muito. Por isso, a sala de aula ainda é o melhor ambiente, mas me sinto obrigado a comparecer.

Mauro- Qual a sua visão sobre a vida acadêmica?
Sérgio- Eu vejo que a vida acadêmica não tem nada a ver com o mundo real.

Agora imagine este adolescente numa empresa. Imagine então muitos adolescentes iguais a este no mundo corporativo. Acho que teremos grandes transformações pela frente…..

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4 comentários:

Washington Sales disse...

Oi, Mauro!
Parabéns pela entrevista, muito bacana.
Esse é uma das minhas preocupações na atualidade, como os alunos percebem a sala de aula, em meio a tantos recursos existentes. Na entrevista, em vários momentos o adolescente parece ficar em cima do muro, quando fala do ambiente da sala, dos professores e dos colegas ( me corrija se estiver errado), para ele o que é necessário é a junção das coisa tradicional e novo. Essa semana terminei um artigo sobre NOVAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NO ENSINO SUPERIOR, e fiz uma pesquisa junto aos professores de onde eu trabalho. Mas ainda não tenho essa visão de como os alunos vêem a sala de aula e os professores nesses novos tempo. Excelente idéia a sua entrevista, vou aguarda a próxima.
Abraços,

Iêda Diniz disse...

Mauro, o que vejo nesse depoimento é um aluno sem rumo e sem limites. Conclui minha graduação em 2008 e presenciei colegas com essa postura. Inclusive colegas de pós-graduação (hoje professores) na época participando de processo seletivo na instituição, utilizando notebook em aula para outros fins e atendendo celular. Então pergunto, o problema da educação está nos docentes, infra-estrutura ou nos "valores" das pessoas envolvidas?
Se eu (aluno) não estou satisfeito, porque continuar? O que leva esse aluno a não buscar outra opção mais “atrativa”?
Essa postura de aluno se reflete na vida do profissional e qual a postura das empresas? Administrar os conflitos, investir em treinamentos e campanhas para corrigir um erro que vem lá de mil novecentos e lá vai fumaça...
O respeito parece cafona. Se eu estou pagando, porque importar-se com o outro? A aula está monótona, é mais cômodo boicotar o professor, no futuro farei isso com meu gerente. Afinal, nos dias atuais atitudes duvidosas é sinômimo de "esperteza. Após a invenção do telefone móvel, tudo é mais importante e prioritário que “educação e respeito”. Se ninguém foi à aula, não posso ficar, pois não pega bem diante dos colegas. E os trabalhos acadêmicos? Vamos compartilhar com os colegas, depois eles ficam com a melhor vaga no mercado de trabalho.
Ah! E com relação ao último ponto da entrevista, discordo do “Sérgio” - a vida acadêmica por esse ângulo tem tudo a ver com o mundo real.
VALORES... é preciso conhecer para praticar!

André Tropiano disse...

Acredito que o grande problema da escola, como a vemos hoje, reside no fato dos métodos não acompanharem toda essa transformação comportamental da atual geração, que é muito influenciada pela tecnologia. Entretanto, não basta apenas incluir a tecnologia em sala de aula, é preciso aplicar um método interativo. Não cola mais o professor que se acha o detentor supremo do saber! Usar notebook e celulares em sala de aula não é falta de respeito, quando bem utilizados, em prol de algo!
Esse é o perfil desta geração, hiperconectada, multitarefa, enfim, é possível prestar atenção e mexer no celular... É claro que colocar o pé em cima da mesa é absurdo! Os limites devem existir...
O fato é que a sala de aula deve ser encarada como construção de conhecimento. Os alunos devem ser envolvidos na aula, estimulados a resolução de questões, desafiados...
Parabéns pelo post! :)
Abraços

Christovam Bluhm disse...

Enquanto jovens de 20 anos continuarem adolas...mudar a sala de aula é o mais fácil da história...

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