domingo, 12 de julho de 2009

O livro de papel vai desaparecer. Só não vê quem não quer.

Quem me inspirou a escrever esse ponto de vista foi o post "O saudosismo e a tecnologia?" do O Cappuccino. Foi ele que me alertou para o vídeo da coluna Conecte do Jornal da Globo que fala sobre o livro eletrônico. O vídeo é realmente excelente.



A pergunta é:
Os livros de papel serão substituídos pelo livro eletrônico no futuro?


A minha resposta é:
Depende. Depende de posicionar o futuro na linha do tempo. Se estivermos falando de várias décadas prá frente, a minha resposta é fácil e simples: com certeza os livros de papel celulose desaparecerão e virarão peça de museu, bem como os jornais e revistas de papel.

Não fará mais sentido plantarmos árvores, construirmos grandes fábricas de papel e prejudicarmos o planeta para produção de livros que ficarão nas prateleiras e serão sub-utilizados. Sejamos sinceros, é isso mesmo que acontece. As pessoas tem dezenas e centenas de livros colocados nas estantes, empoeirados, com baixíssimo índice de leitura e compartilhamento de informação. As pessoas vão nas bancas e compram revistas que serão lidas por apenas duas ou três pessoas. Depois vai pro lixo. E o jornal? É um grande lixo que produzimos também todos os dias. Pegamos o jornal e só lemos uma pequena parte dele. O resto vai pro lixo ou é usado na limpeza residencial. Enfim, é um desperdício enooooorme.

É difícil imaginarmos um mundo futuro, mais inteligente e sustentável, derrubando árvores para serem transformadas em papel. Isso será coisa do passado nas próximas décadas. Esse consciência será despertada a galope. Pode crer. Como fala Jean Paul Jacob, o livro é "tinta sobre a árvore morta".

Mas, então, quando se dará a substituição dos velhos livros de papel por algum outro meio de distribuição da informação e leitura? A resposta para essa pergunta também é simples. Esse processo depende, apenas, de dois fatores básicos:
1- Conveniência
2- Renovação das gerações

CONVENIÊNCIA
O livro em papel será esquecido no momento que tivermos um dispositivo bem barato, muito leve, facilmente manipulável, de preferência flexível (que possa ser mais ou menos dobrado como um livro e revista), que possa cair no chão e não arranhar ou se danificar, que possa ficar ao tempo e até molhar, que possa anotar coisas (como fazemos com os livros impressos), que tenha uma bateria de altíssima duração que faça até a gente esquecer que ela existe, que possa ser transportado nas mãos com facilidade e que não precise de uma bolsa com almofada para protegê-lo dos impactos, que seja extremamente fácil para carregar qualquer conteúdo nele (rápido e fácil, sem fio, sem complicação, ou seja, o serviço de um provedor é condição básica) e que não seja alvo de ladrões. Enfim, parece difícil? Saiba que não. Já existe tecnologia para quase tudo isso. Até a tela flexível já existe. O desafio ainda é o custo e a montagem de um modelo de negócio que todos ganhem na cadeia (o fabricante do equipamento, o provedor do conteúdo e o consumidor). O Kindle da Amazon e o Reader da Sony são bons avanços, mas ainda estão longe da conveniência que citei acima. São dispositivos facilmente vencidos pelo papel.

RENOVAÇÃO DAS GERAÇÕES
Essa é a mais fácil e inevitável pois serão as gerações mais novas que farão a transformação. Os nossos filhos e netos não lêem mais livros, revistas e jornais como nós fazemos ainda hoje. Eles estão acostumados com o computador, com a tela, com a interatividade e com a instantaneidade. Não identificam valor em ter uma estante cheia de livros, CDs ou outras quinquilharias. Está havendo uma mudança: da posse para o acesso. Os jovens se importam mais em poder acessar a informação ou a música em qualquer lugar ou a qualquer momento. Não precisam tê-las. Ou seja, o negócio é ter um dispositivo eletrônico, portátil e fácil de usar, para acessar o que bem entender quanto quiser. Já a geração mais velha é aquela que gosta de possuir as coisas.

Enfim, no frigir dos ovos, tudo dependerá da conveniência. Só isso. Assim que esse dia chegar, os livros só continuarão existindo nas estantes dos colecionadores e entusiastas do papel ou em alguns nichos de mercado, que pagarão uma fortuna para comprar livros e edições limitadas. Serão vistos como exceção e conhecidos como aqueles que matam árvores para um mero benefício individual. Só ainda não imaginei como será a Flip de Paraty nessa época.

A ironia disso tudo é que o mundo vive e continuará vivendo um "boom" de produção de conteúdo interessante e relevante. Mais e mais livros surgirão, de modo explosivo. O ser humano continuará cada vez mais insaciável por conhecimento e aprendizado. E os livros serão parceiros importantes nisso. Mas não no papel...

Esse tal futuro que estamos conversando ainda vai demorar muito. O jornal O GLOBO fez uma enquete na semana passada com a seguinte pergunta: "Você gosta da ideia de passar a ler livros (e jornais) usando o Kindle?". Veja AQUI.
17% dos leitores não gostam da ideia de ler livros e jornais pelo Kindle, mas outros 25% gostam. A maioria, 58%, escolheu a terceira opção de resposta: não sabem o que é Kindle.
Em resumo, esse futuro ainda está distante. Até porque a experiência de leitura no Kindle ainda está longe do prazer e da conveniência de ter um livro nas mãos.

Quero pedir desculpas a todos que adoram livro impressos em papel como eu, tenho toneladas deles e adoro riscá-los e tê-los para consulta, mas esse cenário futuro é inevitável. Só não vê quem não quer.

Ah, pode existir uma esperança que mudará todo o cenário acima. Basta alguém inventar algo que substitua o papel produzido a partir da celulose, que não precise mais de árvores e que seja facilmente produzido e sustentável. Aí tudo pode mudar.

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8 comentários:

Marina Faleiros disse...

o tema é bem interessante, mas seu conceito sobre o setor de papel e celulose está errado. Hoje em dia, se os fabricantes brasileiros pararem de plantar árvores para a fabricação de papel, o meio ambiente fica pior do que está, pois são estas florestas que sequestram mais carbono no país. Todo papel brasileiro vem de fontes renováveis, ou seja, ninguém destroi florestas para fabricar papel, é como uma plantação de café ou cana... então seria o mesmo que propor às pessoas pararem de consumir café porque as plantações são ruins (sendo que a terra utilizada para agricultura é muito maior no Brasil do que a de reflorestamentos).
Acho que a tecnologia digital tem muito a agregar, mas é preciso tomar cuidado ao dizer que ela é melhor para o meio ambiente, veja só os descartes de celulares e eletrônicos com metais pesados que vemos hoje em dia.

Ocappuccino disse...

Oi Mauro. Post excelente, fico feliz de ter despertado este assunto para poder ler este belo texto. Bom, a lenta extinção do papel futuramente é invevitável, pois já inventaram algo que substitua a celulose, e é com certeza o livro eletronico, a tinta eletronica. Como citou é preciso avanços, mas hoje ele já é malevael, eu imagino que ele se transformará numa folha de plástico, durável, maleavel, leve e ali que iremos ler, com a facilidade de uma folha de papel, tudo.

Mas será que há interesse, sabemos que na indústria de celulose, de trannsformação e produção do papel gira muita grana. Como com os combustiveis renovaveis, a biomassa, a partir da cana, há investimentos, há tecnologia, há desenvolvimeento, mas não há interesse economico na substituição do petroleo.

Esta é minha dúvida.

Abraços,
Mateus d'Ocappuccino

Ivan Pacicco disse...

Acredito sim que a longo prazo os "livros" digitais vão crescer e que ganharam muito espaço no mercado, por serem mais práticos e ecologicamente corretos.

Mas aposentar a versão a base de celulose considero muito improvável, já que mais do que a praticidade o que envolve e sustenta a versão impressa são as sensações e apresso que essa versão possui. Os leitores tem a necessidade de não apenas sentir o "calor do livro" como também telo em sua prateleiras, com um símbolo de seu conhecimento adquirido ou ainda como uma lembrança das sensações vividas no momento em que foi lido.

Mas é inegável que esse mercado digital de livros existe e crescera muito com o passar dos anos.

Anônimo disse...

Assim como o rádio não sumiu com a vinda da TV, acho que os livros também não sumirão...

Mauro Segura disse...

Olá, Marina. Obrigado por visitar o blog e deixar seus comentários.
Acho que não fui claro no post que escrevi. O seu ponto é importante e reconheço que a fabricação de papel e celulose no Brasil vem de florestas sustentáveis. Atualmente, há 5,5 milhões de hectares de florestas plantadas do Brasil, dos quais 1,7 milhão de hectares são destinados à produção de celulose e papel. Apesar dessa área equivaler a apenas 0,2% das terras agricultáveis do país, ela já é bem grande. O Brasil é líder mundial na produção de celulose de eucalipto, tendo produzido, em 2008, quase 13 milhões de toneladas de celulose e 10 milhões de toneladas de papel.
Mas o problema da produção de celulose e papel no Brasil não é a questão da sustentabilidade das plantações, nem somente da monocultura do eucalipto, que arrasa e empobrece a qualidade da terra, mas do seu processo industrial, que consome grande quantidade de água e energia elétrica (também podendo ser gás e carvão), com sérios danos ao ar e uma imensa geração de resíduo industrial de difícil tratamento. O impacto ao meio ambiente é inevitável. Por favor, eu não estou dizendo que as grandes indústrias de celulose são irresponsáveis, mas meu ponto é que os desafios são grandes e custosos para a sociedade.
Enfim, o meu ponto de vista é que o consumo de papel vai sofrer um abalo substancial no futuro, em função do alto custo econômico e ambiental que as fábricas de celulose geram para sociedade. Mas isso só vai acontecer quando aparecer uma tecnologia que possa substituir o papel.
Obrigado por visitar o blog e possibilitar essa conversa. Abraços. Mauro.

Santos Dumont Número 8 disse...

Mauro, cheguei aqui por indicação do Taurion. Parabéns pelo ótimo blog.

Acredito que o mais sensato seja esperarmos, nos próximos anos, uma convivência (não muito pacífica) entre os dois tipos de livros (papel e eletrônico).

Entretanto quero acrescentar um "molho" nessa inevitável salada.

Tenho escrito sobre esse tema, recorrentemente, em minha coluna no iMasters/UOL (http://imasters.uol.com.br/indice/autor/113231/claudio_soares) e atualmente empreendo um experimento no Twitter (http://twitter.com/sd8), a partir de um romance que lancei em 2006, com o intuito de avaliar as redes sociais como um novo espaço para a criação de narrativas.

O livro na web é software. O jornal também (vide as APIs do New York Times).

Entendo que a partir do momento que aplicações (criativas) de suporte à leitura começarem a apresentar, na prática, os benefícios da leitura on-line (junto aos aspectos, conveniência e gerações, que você já relaciona em seu artigo) penso que a transição se tornará mais rápida.

A respeito das novas gerações em específico, quero lhe contar um interessante "causo": minha filha de 16 anos, há poucas semanas, tornou-se uma "beta reader" de um dos mais populares sites brasileiros de fan fiction.

Explico: fan fiction (para quem não conhecem) é um movimento interessante de escrita criativa na web bastante popular entre os adolescentes. Beta Reader são os revisores desses textos. São importantes no processo de publicação, pois as histórias só vão para o ar depois de passarem pelo crivo dos "beta" readers. É curioso o fato de que o termo "beta" os aproxime mais dos processos de desenvolvimento de software do que de produção editorial. Os beta também devem fazer pequenas revisões de código HTML e Javascript também, e minha filha (que está no ensino médio e não tem qualquer experiência prévia de programação) as tem feito com bastante eficiência.

Isso nos leva para um outro nível da discussão que eu gostaria de ressaltar: o processo de criação de narrativas on-line também deverá ser influenciado pela tecnologia e acelerará o processo de substituição do papel pelas telas.

O texto, na web, é texto e meta texto (xml, html, java, APIs etc), ou seja, software.

Aqui, quero apresentar uma preocupação particular (como leitor e escritor) em relação ao idioma português na grande rede.

Quanto mais o processo em linguagem natural for absorvido pelas aplicações on-line, torna-se cada vez mais estratégico que tenhamos o léxico da nossa lingua disponível na rede para incorporação nos softwares que "falem" português (isso será ainda mais importante com a web semântica).

Um forte abraço,
Claudio Soares
http://www.santosdumontnumero8.com.br
http://twitter.com/cssoares

Leonardo Bentes disse...

Concordo que é apenas questão de tempo para que o livro em papel seja aposentado, principalmente por causa das questões ecológicas. Mas que ele já é um grande tecnologia, não há duvida. Há um texto muito interessante do Millôr Fernandes que nos leva a pensar: Será que não estamos complicando as coisas simplesmente por complicar?

O texto pode ser lido em http://www.amigosdolivro.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=3689

Abraços.

Mauro Segura disse...

Leonardo. Eu não conhecia esse texto de Millôr Fernandes. É simplesmente espetacular. Obrigado por visitar o blog. Abraços. Mauro.

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