sábado, 6 de dezembro de 2008

RP 2.0 - Uma experiência de jornalismo multimídia

Em julho de 2005, Edu Vasquez postou em seu blog um texto cujo título era: “O Press-Release morreu?” Passados mais de dois anos, acho incrível como o conteúdo do post continua atual.

Em 2007, Thiane publicou um artigo muito pertinente. Falava em assessores de imprensa preguiçosos e PR 2.0.

Agora caminhemos para o post “O papel das Relações Publicas no Mundo Digital” publicado no blog da Thiane em set de 2008.

Ler os três posts juntos faz a gente pensar.

O que mais assusta nisso tudo é que o tempo passa, o tempo voa, mas o press-release tradicional, “velho de guerra”, continua numa boa. Ou seja, as assessorias insistem na fórmula do press-release pois ainda acham um método eficaz e mais conveniente de fazer RP.

Temos debatido muito isso dentro da IBM.

No final de 2007, nós decidimos fazer uma experiência. Fizemos algo diferente. Nós chamamos a experiência de “webrelease”. Criamos um “release 2.0” a respeito de novidades de tecnologia (mais focado em hardware), contemplando o que anunciamos no ano que se encerrava e com uma previsão das tendências para o ano seguinte. O webrelease incluía links interessantes, com um vídeo de um executivo nosso importante e muitas mensagens em formato multimídia.

Ou seja, criamos um release bem diferente do tradicional, realmente com conteúdo interessante, inovador e muito rico. Quando lançamos nesse projeto, nós não estabelecemos nenhum objetivo claro em termos de resultados. O objetivo maior era experimentar algo novo e sentir a receptividade.

E o resultado?

O fato é que recebemos bom feedback de vários jornalistas. Eles gostaram da proposta, pelo menos foi o que alguns nos disseram via email. Quase nada foi publicado daquele conteúdo que enviamos. Fiquei surpreso com o pouco entusiasmo dos nossos jornalistas mais chegados. Mas quero lembrar que não estabelecemos objetivos para a iniciativa.

De forma geral, o grupo de comunicação que trabalhou no projeto achou o resultado bom. A minha avaliação foi um pouco diferente. A minha percepção é que a maior parte dos jornalistas prefere informação objetiva. Algo no estilo: “Fala o que tem que falar e pá-pum! Nada de lero-lero”. O nosso webrelease tinha vários links e conteúdos. Acho que isso é meio “lero-lero” para muitos jornalistas. É quase como dizer para eles: “Olha, eu tenho muita coisa para dizer, eu tenho tudo isso aqui, dá uma pesquisada e veja o que te interessa”.

Infelizmente, a maior parte do jornalismo opera no estilo “máquina de moer carne”, ou seja, não tem muito tempo para pesquisar e fazer coisas muito elaboradas. Será que estou sendo injusto? Conversei isso com meu grupo e eles acham que estou sendo radical nessa linha de raciocínio. O fato é que a experiência evidenciou prá mim que a maioria dos jornalistas quer informação resumida, bem pragmática e factual. Ou seja, eles querem ainda o press release... mas não para publicar o release e sim para usá-lo como pauta.

Não estou falando que os jornalistas são preguiçosos. Aliás, é uma covardia quem fala isso. Obviamente que existem alguns jornalistas displicentes na tarefa de buscar e apurar fatos, mas a maioria sofre mesmo é com a pressão do tempo e do editor. O volume absurdo de informação com que bombardeamos (nós, empresas!!) os jornalistas, todos os dias, é matador. Eles recebem toneladas de releases e gastam uma parte considerável do dia garimpando as pepitas de ouro no meio de um monte de pedras que encontram em suas caixas de entrada. É garimpagem mesmo. Parte do problema somos nós, das assessorias das empresas, que não temos piedade no uso da tecla “send”. Por outro lado, parte da culpa vem dos próprios jornalistas, que não tem tempo para (ou não querem) pesquisar e fazer matérias mais elaboradas. Ou seja, o binômio pressa-comodidade tem maior peso na balança.

Enfim, diante desse imbróglio, eu ainda vejo dificuldade em fazer da tal RP 2.0 uma realidade em nosso dia a dia. Não por parte das ferramentas, mas sim por conta da dificuldade de entender exatamente o que os jornalistas desejam e o que as empresas podem ganhar ao entrarem nessa jornada. Para quem se interessa pelo assunto, vale a pena ler o post do último Newscamp que dá uma exata noção dessa dificuldade.

Para apimentar mais esse cenário, discute-se muito sobre o futuro dos jornais, tendo em vista que existe uma transformação evidente em curso. Muitas mídias já estão abandonando sua versão impressa e adotando exclusivamente a online. Na verdade, a discussão do futuro do jornalismo vai além da mídia. O Luis Nassif é um que pôe lenha na fogueira quando fala nesse assunto. Vale ler esse post. Enfim, não dá para falarmos de RP 2.0 sem pensarmos em "novos" profissionais de comunicação e em novos conceitos de jornalismo.

Voltando ao RP 2.0...
No evento 2º. Fórum de Comunicação do Governo Federal, a Patrícia Moreira (editora de política, economia e Brasil) do Jornal da Tarde, falou sobre isso. Ela disse que as redações estão inundadas de emails com releases e sugestões de pauta. Um jornalista no evento comentou que, recentemente, perdeu uma coletiva importante pois o convite foi enviado unicamente via e-mail e ele não viu. O convite ficou perdido no meio de duzentos emails não lidos. O assunto era muito importante. O jornal e a empresa se sentiram prejudicados com o ocorrido. Por fim, Patrícia foi clara ao microfone: “-- Se você tem algo relevante e diferente, o melhor é usar a velha fórmula: pega o telefone e liga”.

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7 comentários:

Vera disse...

Não importa se a tecnologia é 2,3 ou 4.0, jornalista gosta, quer e busca notícia exclusiva. Portanto, independente da versão em que se transforme o press-release velho de guerra, ele será sempre sinônimo da versão oficial das empresas, entidades,governos, celebridades... Pode até suscitar curiosidade, chamar a atenção para uma discussão de pauta, mas gerar notícia per se, com espaço editorial relevante, não creio não... Bom jornalismo pressupõe questionar, muitas vezes confrontar, a fonte, comparando suas afirmações com as do concorrente; até mesmo para reconhecê-las como convincentes. E é disso que, muitas vezes, nós, empresas, nos esquecemos: a base do relacionamento com a imprensa se chama No-tí-cia. E o peso de uma notícia se mede pela relevância que ela tem para o público atingido por um determinado veículo. É isso que define o espaço ganho por um fato numa edição de jornal/revista. E também é isso que define, no mundo Web 2.0, a ênfase com que um fato é debatido pelas chamadas comunidades virtuais. Ou seja: os meios e a sua abrangência podem mudar, mas a definição de notícia segue sendo a mesma. E quem 'quer ser notícia' precisa entender essa essência. Isso evitará muita perda de tempo: das fontes, dos jornalistas e dos participantes das redes sociais.

Thiane disse...

Muito obrigada pela visita lá no blog e pelo link. RP 2.0 é aquilo que torna sustentável o barulho causado pela publicidade e pela guerrilha, é o que gerencia a reputação e minimiza as crises.Estamos na era do excesso de informação. Relacionamento é a chave de tudo. Por isso precisamos também mudar a forma como divulgamos nossas notícias. Enfim, espero você por lá mais vezes. Abraços

Edu disse...

Mauro, o modelo das redações está completamente perdido. Preste atenção. Quanto tempo faz que você não lê um grande especial em um veículo de massa que não seja uma espécie de documentário Globo Repórter? As limitações de infra-estrutura, salários defasados, grande utilização de estagiários, equipes cada vez menores para cobrir um número imenso de mercados, falta de especialização/especialidade, assédio moral, má formação na base, etc. Essa são algumas das características que formam a maior parte da redações hoje em dia.

A notícia perdeu o encanto quando virou produto. A maioria das empresas acredita ser ser uma grande fonte de informação, mas, no geral, tem pouco ou absolutamente nada a dizer. Acreditam que um cafezinho ou uma coletiva com jabá vão resolver essa falta de conteúdo.

Essa relação empresa-notícia-redação está completamente destroçada. É mais do mesmo e poucos mesmo se arriscam a inovar.

Mario Soma disse...

Excelente post! Parabéns pela iniciativa! Abs.

Augusto Pinto disse...

Prezado Mauro, meu nome é Augusto Pinto e eu sou sócio do Mário Soma (que você conhece)na RMA Comunicação. Por não ser jornalista (trabalhei na IBM, fui Presidente da SAP Brasil e Siebel Systems) me considero "um convertido" à indústria de comunicação. Isso me dá uma certa isenção sobre os comentários a seguir.

Nós da RMA estamos nessa cruzada do PR 2.0 há mais de dois anos, seguindo de perto todas as tendências propostas pelo Todd Defren (Shift) e Guy Kawasaki. Seu post foi simplesmente brilhante e eu concordo 100% com suas colocações que eu resumiria em 2 linhas:
1. Os jornalistas estão mais interessados em novas formas de receber as propostas de pautas, do que num novo modelo de press release (que a cada dia perde sua importância).
2. A relativa frieza com que os jornalistas receberam os web releases se relaciona à praticidade: um "monte de links é vista apenas como lero-lero".

Nossa visão da RMA é que seja um mero press release, como a venda de uma importante pauta exclusiva, AS ASSESSORIAS DEVERIAM DAR MUITO MAIS FOCO À OBJETIVIDADE E À CONTEXTUALIZAÇÃO DO QUE AO MONTE DE LINKS.

Nós temos uma visão pragmática do PR 2.0, onde a postagem na web e os links para conteúdos relevantes são meros acessórios. O importante é efetivamente a objetividade e a contextualização. É A CONTEXTUALIZAÇÃO QUE CRIA O PANO DE FUNDO DA MATÉRIA E EU CREIO QUE ESTA AJUDA QUE SERIA BEM VINDA PELOS JORNALISTAS.

A RMA está entrando de sola nesse modelo a partir de 01/09. Se você estiver interessado me diga e te mandarei alguns dos padrões que estamos criando para sua avaliação, que será valiosa pra gente.

Forte abraço
Augusto Pinto

Anônimo disse...

Acho que não basta ter links, videos para chamar algo de PR 2.0. Isso tudo é só "lero/lero", formato bonitinho. Entendo que o 2.0 pressupõe que o Press Release deixasse de ser unilateral, em que houvesse mais discussão e não só um despejo de informação pela empresa.

Marcia Ceschini disse...

Olá Mauro. Realmente seu texto mata a pau. E essas divergências infelizmente estão longe de acabar, principalmente pq (olha o absurdo) não há diálogo entre comunicadores, assessores e jornalistas.Um diálogo verdadeiro, sem ser pautado por jabá ou presentinho.
Abraços

PS: imagina eu no interior? ;D

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