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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Os riscos de associar uma marca a uma pessoa

  

Lembro muito bem de uma situação de grande aprendizado vivida há mais de 20 anos. Essa minha experiência teve como pano de fundo uma série de debates e reuniões com o Diretor de Relações Externas da empresa a respeito de um projeto de patrocínio. Apesar de ter acabado de assumir o comando de comunicação de marketing, eu ainda era uma espécie de aprendiz de feiticeiro da área, tudo era novidade. Sob a pressão de construir projetos inovadores, surgiu na nossa frente uma oportunidade maravilhosa de patrocínio. O retorno sobre o investimento mostrava-se espetacular e a oportunidade parecia imperdível.

A questão é que o projeto de patrocínio estava ligado a uma personalidade nacional, uma pessoa admirada por todos, com uma reputação inbalável e querida por toda a mídia. Associar o nome da empresa a essa personalidade parecia ser maravilhoso, pois essa pessoa agregaria atributos importantes para a marca. Foi um projeto que a minha equipe vinha desenvolvendo arduamente, com características inovadoras e inexistentes no mercado. Como aprendiz da área, obviamente, cometi equívocos e erros que poderiam ter sido evitados. Um deles é que deixei para conversar com o Diretor de Relações Externas muito tarde. Quando cheguei nele, o desenho do projeto já estava num estágio muito adiantado.

Lembro muito bem da conversa inicial. Ele questionou o projeto desde o primeiro minuto. Não tinha nada contra a pessoa, aliás, ele afirmou várias vezes ser um admirador voraz dessa personalidade, mas achava um risco muito grande associar a marca da empresa a uma celebridade. Ou seja, seu argumento era conceitual e não dizia respeito ao nome envolvido. Ele não recomendava seguirmos em frente com um projeto daquele tipo, independentemente da personalidade ou do nome em questão.

Seu receio se baseava em dois simples pontos:
– que o nome da pessoa se sobrepujasse à marca da empresa;
– que algum problema pessoal daquela personalidade, desconhecido e/ou imprevisível, pudesse impactar os atributos da marca, podendo até causar uma crise, o que prejudicaria tremendamente a credibilidade da marca.

Ele dizia que, por mais inabalável que fosse a reputação de tal pessoa, fatos imprevistos e situações impensadas poderiam reverter o cenário e colocar em risco a marca da empresa. Acho que ouvi isso dele mais de “mil vezes”.

O projeto proposto era, inicialmente, de doze meses. Isso significava dizer que, ao longo do tempo, a associação da marca da empresa com a personalidade iria se fortalecer, a ponto de os atributos dos dois lados se misturarem. O executivo tinha muito receio dos riscos envolvidos, apesar de todas as evidências mostrarem que as ameaças eram mínimas e controláveis. Eu, na minha ingenuidade e inexperiência, achava-o excessivamente conservador e não conseguia ver riscos sérios. Eu queria a todo custo colocar o tal projeto inovador no ar, pois tinha certeza de que ele traria excelentes resultados para a empresa. Enfim, foram várias discussões e muitas análises feitas até a tomada de decisão.

Conto toda essa história por causa da notícia que ocupou os jornais nas últimas semanas: a mentira do nadador Ryan Lochte para encobrir a sua noite de baderna tropical durante os Jogos Olímpicos no Rio. Cinco grandes patrocinadores anunciaram o cancelamento dos contratos com Lochte. Segundo o cálculo de especialistas da ESPN, antes do incidente, o nadador contava com aproximadamente um milhão de dólares em cotas de patrocínio. Além da enorme perda financeira, o Comitê Olímpico e a federação de natação dos Estados Unidos sinalizaram que Lochte poderá ser punido por tais entidades. Ou seja, o que já é muito ruim, pode piorar ainda mais.

Histórias similares são bem conhecidas, apenas mudam os personagens e as marcas. Um dos casos famosos ocorreu com um dos atletas mais admirados no mundo: Michael Phelps. No início de 2009, uma foto do Phelps fumando maconha explodiu na imprensa. A imagem dele era tão forte na época que as caixas de sucrilhos da Kellog’s carregavam a imagem do atleta estampada em grande estilo. Phelps era sinônimo de sucesso, saúde e código de conduta. Era difícil imaginar que algo pudesse abalar esse fenômeno. Afinal, o que poderia acontecer a um campeão olímpico como ele, na época com 23 anos, com toda uma carreira ainda pela frente? O fato é que o improvável, inconcebível ou inacreditável aconteceu.

Outro caso bastante conhecido é o de Tiger Woods, que também ocorreu em 2009. O escândalo de infidelidade conjugal do maior jogador de golfe americano de todos os tempos causou sérios impactos aos seus patrocinadores diretos. Ele era considerado, tal como Michael Phelps, um exemplo de atleta, cidadão e ser humano. Todo mundo queria se associar a ele. Em pouco tempo, os patrocinadores foram abandonando o atleta e tratando de gerenciar uma situação improvável e complicada. Nos anos seguintes, Woods saiu do noticiário e sua imagem perdeu o encanto.

Como desvincular as marcas desses acontecimentos? Essa é uma pergunta curta que sempre exige uma resposta longa. Empresas com marcas fortes têm que pensar muito a respeito da estratégia de associar suas marcas a uma personalidade, por mais “segura” e inabalável que seja a imagem do personagem em questão. Os exemplos de Lochte, Phelps e Woods são casos evidentes dos riscos de tais estratégias.

Sobre a minha história…

O projeto era o patrocínio ao Jô Soares, quando a IBM colocou na mesa do Jô, no seu programa Jô Onze e Meia, um notebook onde ele acessava a internet ao vivo. Isso ocorreu na década de 90, quando a internet começava a despontar e chegar a nossas vidas. Foi a primeira vez que isso foi feito na TV, em todo mundo. Foram quase dois anos contínuos no ar, de segunda a sexta, com grande sucesso e impacto na mídia. O diretor da IBM era Roberto Castro Neves, uma das maiores autoridades de comunicação corporativa do País, hoje consultor e autor de vários livros de comunicação. O projeto foi adiante e gerou grande retorno para a IBM, que naquela época buscava popularizar sua marca, pois ainda era conhecida como fabricante de PCs. Os nomes IBM e Jô Soares ficaram intimamente conectados durante aquele período.

Vai aqui um abraço saudoso ao amigo e mestre Roberto Castro Neves. Com ele, aprendi os fundamentos da comunicação e do relacionamento com a imprensa. Ele tem responsabilidade direta na minha formação e pela minha decisão de seguir na carreira. Agradeço a ele por ter suportado um “garoto” repleto de energia, insistente e muitas vezes inconsequente. Com ele, amadureci muito e me tornei um profissional melhor.

Texto baseado em um post que escrevi anos atrás. A história se repete.


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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Banco gerencia crise de imagem a partir de carta enviada para seus clientes

 Na maioria das vezes as crises empresariais com a opinião pública vêm de fora para dentro, como consequência de fatos que não estão no controle ou no radar das organizações. Isso é normal e faz parte do jogo. O duro de engolir é quando a crise tem origem numa ação despretensiosa da empresa – ou seja, a culpa tem origem nela própria. Fatos assim não são muito comuns, mas o ocorrido, dias atrás, é o exemplo notório de que o monstro da crise está sempre à espreita nas grandes empresas.

Nesse mês de julho, o Banco Santander enviou a carta "Você e seu dinheiro" para seus clientes da categoria "Select" (com alta renda) comentando sobre o cenário econômico brasileiro, ação rotineira na comunicação regular do banco com seus correntistas. O fato é que no meio do texto havia uma frase que dizia que a subida da preferência do eleitorado pela reeleição da Dilma teria como consequência a deterioração da economia brasileira. A carta dizia o seguinte: “Se a presidente se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas, um cenário de reversão, o câmbio voltaria a se desvalorizar, os juros longos retomariam a alta e o índice da Bovespa cairia, revertendo parte das altas recentes. Esse último cenário estaria mais de acordo com a deterioração de nossos fundamentos econômicos”.

O que era uma simples carta transformou-se numa crise a partir da repercussão do conteúdo. Em plena corrida eleitoral, o fato ganhou as páginas dos jornais e virou um debate acalorado.

O governo e o PT reagiram. O desconforto foi tão grande que o banco publicou um comunicado em seu site afirmando que o texto não reflete, de forma alguma, o posicionamento da instituição: “O referido texto feriu a diretriz interna que estabelece que toda e qualquer análise econômica enviada aos clientes restrinja-se à discussão de variáveis que possam afetar a vida financeira dos correntistas, sem qualquer viés político ou partidário. Sendo assim, o banco pede desculpas aos clientes que possam ter interpretado a mensagem de forma diversa dessa orientação, e reitera sua convicção que a economia brasileira seguirá sua bem sucedida trajetória de desenvolvimento”.

A mensagem do Santander ocupou espaço de destaque na capa do site durante todo o final de semana. Não havia meio de entrar no site sem ler a mensagem. Veja abaixo.


Achei muito corajosa a publicação do comunicado. Uma possível ação seria enviar uma carta esclarecedora somente para os clientes Select, aqueles que receberam a carta inicial, assim a situação ficaria confinada a um número limitado de pessoas. Ao publicar um comunicado aberto na capa do site, o Banco levou o caso ao conhecimento de todos: cidadãos, interessados, imprensa e, principalmente, seus clientes, sem filtros ou critérios. A partir desta ação o caso ganhou visibilidade ainda maior. O conteúdo do comunicado foi excelente, especialmente quando a empresa pede desculpas e afirma que o texto enviado a um segmento de clientes não reflete o posicionamento da instituição. Certamente a franqueza e transparência do Santander foi apreciada por todos.

Segundo matéria do O Globo no último sábado, 26 de julho, a direção mundial do Santander enviou uma carta à presidente Dilma com um pedido formal de desculpas, assinada pelo presidente mundial do banco. Tal fato mostra o impacto e a gravidade do caso, além de evidenciar como ele foi tratado dentro da empresa.

Não faltaram besteiras ditas por aí e publicadas pela imprensa. Alguns falaram em "terrorismo eleitoral e digital", outros falaram que o banco "faz campanha aberta contra Dilma". Tudo perda de tempo. O que ocorreu foi uma pequena negligência e falta de atenção no conteúdo do texto enviado para os correntistas. Certamente foi escrito pela equipe de economia do banco que não conseguiu sacar que uma afirmação como aquela poderia ter alguma consequência de interpretação ou viés político. Sim, foi uma falha, até imperdoável, mas muito plausível, que poderia ter acontecido também em outras empresas ou situações.

Não duvido nada que este tipo de afirmação esteja sendo escrita em outros "papers" de economistas que estão avaliando o cenário econômico nos próximos meses. O problema é que esta carta do Santander alcançou milhares de clientes importantes e alguns se incomodaram com a comunicação do Banco. Acredito que se o texto tivesse sido revisto por alguém mais atento da área de comunicação do banco esse possível risco teria sido detectado. Cabe dizer que, em anos eleitorais, todas as organizações ficam muito mais cuidadosas e atentas a qualquer tema com conotação política ou que passe perto do processo eleitoral. Na dúvida, o melhor é ficar calado.

Enfim, o desgaste da publicação do comunicado e o envio da carta de desculpas para a presidente são reconhecimentos do Santander que alguém pisou na bola. Agora cabe gerenciar o desconforto, tratar do arranhão na imagem e rever processos e "guidelines" internos para que situações como esta não voltem a ocorrer. Lições para todos :) 

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Luiza Trajano aplica um media training invertido no Manhattan Connection


Dias trás bombou nas redes sociais a entrevista que Luiza Trajano deu no Manhattan Connection. O mote principal dos comentários foi a capacidade de argumentação da Luiza perante as garras afiadas do pessoal do programa. Alguns citaram que a entrevistada deixou o ácido Diogo Manardi constrangido, outros afirmaram que Luiza tem ligações com o PT por conta de sua exagerada motivação com os indicadores da economia brasileira e por aí vai. Não tenho interesse em discutir isso aqui, mas sim olhar a entrevista pelo lado do comportamento e da capacidade demonstrada pela Luiza.

Entrevistas para imprensa, especialmente dadas por CEOs, sempre são cercadas de atenção da assessoria e do time de comunicação da empresa do entrevistado. Normalmente merecem cuidados especiais, uma preparação prévia e uma boa dose de planejamento. Isso é natural e faz parte do jogo, até porque uma declaração de um CEO causa impacto no mercado, especialmente se a empresa tem ações no mercado acionário. Por isso as organizações implementam treinamentos de como falar e se relacionar com a imprensa, normalmente chamados de media training.

Alguns CEOs, governantes e personalidades parecem não precisar de media training. Existem pessoas mágicas, detentores de atributos nativos em seu DNA que geram naturalmente credibilidade e admiração. Será que pessoas como Drauzio Varella precisam realmente de algum treinamento? Quando o Dr. Drauzio abre a boca a gente acredita. Steve Jobs e Richard Branson são bons exemplos. No Brasil Jorge Gerdau e Antônio Ermírio de Moraes são exemplos evidentes. Lembro bem do Comandante Rolim numa palestra que assisti, eu fiquei encantado com sua capacidade de comunicação. Acho que a Luiza Trajano entra nessa lista de speakers autênticos e críveis. Veja qualquer entrevista ou apresentação da Luiza. Ela encanta.    

A entrevista da Luiza para o Manhanttan Connection foi interessante. Ela foi simples, clara, didática e factual. Parecia estar conversando numa tarde qualquer, em um lugar qualquer, tomando um cafezinho com bolo de laranja. Soube equilibrar os seus pontos de vista pessoais com a visão da empresária. Teve paciência e tolerância com os entrevistadores, que foram negativos o tempo todo. Não vi nada de positivo na posição e na argumentação deles, na verdade eles tinham uma visão de fim de mundo e vieram armados para colocá-la em sinuca. Diogo Mainardi, como sempre, veio com uma visão catastrófica. Ele não vê salvação para o varejista brasileiro e teve a ousadia de perguntar quando ela pretendia vender a sua empresa para a Amazon. Isso não foi apenas uma indelicadeza, foi uma grosseria. Me parece que este foi o único momento em que Luiza ficou séria, mas ela não caiu na pegadinha dele. Talvez até tenha ficado ansiosa com a grosseria, porém respondeu com fatos e de forma assertiva, tendo ainda presença de espírito para dizer que ia mandar um email para ele pois ele não estava com dados verdadeiros.

Sorriso nos lábios, leveza de expressão e brilho nos olhos. Luiza tem isso em seu DNA, além de profundo conhecimento de seu negócio e do mercado onde atua. Essa é uma combinação infalível para conquistar carisma e credibilidade. Ela não nega que é uma otimista de carteirinha, mas reconhece a enorme distância existente entre os mercados varejistas brasileiro e norte-americano. Também cita alguns enormes desafios que o varejo nacional tem pela frente, como fazer a integração das lojas física e online. Ela disse que o Magazine Luiza é um "case" e que 57% dos consumidores que compram no site da empresa visitam uma loja física.

Quer saber?  Acho que esta entrevista de 16 minutos é um media training invertido. Geralmente são jornalistas que dão treinamento para os empresários nos tradicionais media training corporativos. Aqui rolou o contrário. Foi a Luiza Trajano que deu um media training no grupo de jornalistas experientes e reconhecidos do Manhanttan Connection. Eles entraram com o espírito de "metralhar esta senhora" e receberam em troca uma verdadeira aula de carisma, conhecimento, capacidade de argumentação, simplicidade, domínio do assunto e comunicação direta e assertiva. Foi um show. Acho que eles se surpreenderam e aí está a genialidade da entrevistada: a capacidade de surpreender. Não é por acaso que Luiza Trajano comanda um conglomerado com faturamento próximo aos 10 bilhões de reais.

   
Veja a ENTREVISTA


http://g1.globo.com/globo-news/manhattan-connection/videos/t/todos-os-videos/v/empresaria-fala-sobre-comercio-e-economia-no-brasil/3088745/



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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Brasil Post entra no ar

Há pouco mais de 3 anos eu escrevi um post neste blog sobre o Huffington Post. No título eu deixava claro que o HuffPo era o exemplo mais pragmático do jornalismo do futuro, especialmente porque ele foi criado nativamente no mundo da internet, absorvendo todos os conceitos existente no mundo da web e das redes sociais: transparência, diálogo, igualdade e inovação. Desde então o HuffPo cresceu, hoje opera em diversos países pelo mundo e continua sendo uma referência mundial.

A excepcional novidade é que o HuffPo chega ao Brasil numa associação com a Abril.  E ganha um nome forte: BRASIL POST. Hoje foi o lançamento e estou muito feliz pois entro no projeto como blogueiro e contribuidor. Ao longo dos últimos anos eu me desenvolvi como blogueiro e acredito que posso contribuir concretamente para o Brasil Post.

Neste primeiro dia do Brasil Post eu tive meu primeiro texto publicado. Mas o que me surpreendeu foi entrar no Brasil Post e ver a chamada do meu post logo abaixo da chamada da Arianna Huffington, imagem que vai ficar na minha memória e que reproduzo abaixo.




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terça-feira, 9 de julho de 2013

IBM lança blog para jornalistas



Há poucos anos atrás, num ótimo papo regado a um loooongo café, eu conversei com Daniela Braun sobre novas formas para as empresas se relacionarem melhor com os jornalistas. Dani é jornalista, comentarista do programa CBN Tecnologia da Informação, editora de Tecnologia do portal G1 e blogueira.

A verdade, nua e crua, é que os novos meios de comunicação trouxeram facilidades para os jornalistas na busca de informações e apuração das notícias, por outro lado, estes mesmos jornalistas atualmente enfrentam um tiroteio que vem de todos os lados em termos de notícia. As empresas, em geral, diante da facilidade de se construir um release e disparar na rede, viraram metralhadoras de notícias, disparando tiros de notícias para todos os lados, sem piedade e compaixão. Ficou fácil apertar o "send".

Na minha conversa com Dani, eu comentei sobre um possível uso das redes sociais na conversa entre empresas e jornalistas. Falei especificamente sobre usarmos blog para isso. Ela gostou, me pareceu que nunca tinha pensado na ideia, e falou algo que memorizei: "o blog valerá a pena se ele trouxer informações diferentes do que a empresa divulga via os meios tradicionais. O blog tem que mostrar os bastidores da empresa e trazer novidades, que não necessariamente serão usadas pela imprensa, mas vai ajudar muito em melhorar o conhecimento da empresa, quem é quem, seus produtos, serviços e objetivos". Guardei esse feedback pra sempre. Talvez ela nem mais se lembre disso, mas foi algo genuíno e sincero que fazia todo o sentido.

O tempo passou e eu não levei adiante a ideia do blog para jornalistas. O dia a dia e número de projetos prioritários sempre empurraram essa ideia para o futuro. Foi com surpresa que recebi do time de comunicação externa da IBM a ideia de lançarmos um blog para imprensa. A iniciativa partiu deles e fiquei entusiasmado. A proposta, ousada, merecia uma bela análise pois estávamos falando em criar mais uma forma de contato e relacionamento com os jornalistas. O blog teria que desempenhar um papel diferenciado e específico, trazendo novidade e valor, com clareza de seu papel.

Aprendi com o time os pontos mais importantes que justificaram a criação do blog:

1
As redações estão ficando cada vez mais enxutas. Em diversos veículos os jornalistas que cobrem tecnologia também cobrem assuntos mais genéricos como cotidiano, cidades, economia, etc. Por isso, criar um espaço dedicado para apresentar tecnologia de forma mais simples e didática parece ser bem bacana. A proposta é buscar um equilíbrio nos posts para que seja interessante a todos - não fique nada nem muito básico nem muito complicado.

2
Existe uma necessidade premente de alcançarmos a imprensa de fora do eixo Rio-SP. Quando saímos deste eixo verificamos que são poucos os jornalistas dedicados exclusivamente ao tema tecnologia. Muitos fazem parte de redações mais enxutas e têm que cobrir diversos assuntos, por isso não são experts em tecnologia, o que reforça a necessidade de materiais mais didáticos e amigáveis.

3
Na IBM temos feito cada vez mais materiais visuais (infográficos, vídeos, imagens, fotos...), que são ótimos e de fácil entendimento.  Tem sido um desafio levar tais materiais ao jornalistas usando os nossos meios tradicionais de comunicação (press release, por exemplo). O blog será um meio mais fácil e interativo para compartilhar materiais desse tipo.

4
Sentimos que a comunicação com imprensa ocorre muito em mão única - ou a empresa manda um release pro jornalista ou o jornalista entra em contato pedindo informações e/ou entrevistas sobre um assunto. Sempre sentimos falta de um canal de mão dupla permanente, algo que permitisse um diálogo mais interativo, onde os jornalistas pudessem comentar, dar feedback, receber e pedir informações, interagir conosco, em qualquer hora ou dia. Queríamos dar mais conveniência e acesso dos jornalistas aos nossos materiais.

5
Muitos termos estão em moda na área de tecnologia. Big Data, Cloud e Social Business são alguns deles, mas o número é enorme. Infelizmente a indústria de tecnologia é complexa e árida para quem não é da área. Nossa ideia é simplificar e desmistificar esses conceitos, mostrando como essas tecnologias estão presentes no nosso dia a dia, através de imagens, vídeos e depoimentos simples de especialistas.

6
Ouvimos de alguns jornalistas, e não foram poucos, o feedback de que seria bom descomplicarmos não só a tecnologia mas também a IBM :) Então o blog também será usado para explicar a IBM, falar sobre nossas áreas, contar histórias, mostrar personagens, etc.

As razões do blog estão aí. Faz sentido, né?
Não é por acaso que o nome do blog é "TI mais Simples".... ou "TI + Simples" :)
Creio que esta é uma forma inovadora de fazer comunicação e desenvolver relacionamento com o meio jornalístico. Queremos prover mais transparência, conveniência e conhecimento. Receber comentários e ideias a respeito será maravilhoso. No fundo eu acredito que o conteúdo do blog vai além da imprensa, ele pode ser uma boa fonte de referência para estudantes, curiosos, admiradores e até profissionais atuantes na área de tecnologia.
Só o tempo dirá se o blog vai funcionar e vai cumprir seu papel.

Acesse o blog: www.timaissimples.com.br

Dani, gostou? Bjs pra você. Obrigado pela inspiração.
Parabéns ao time de comunicação externa da IBM.

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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Você não sabe o que é procrastinar na comunicação? Pois deveria

Uma vez eu fui ao médico e contei a ele a minha história:
-- Tenho enxaqueca regularmente. Resisto bastante antes de tomar um remédio. Vou segurando, segurando, até não aguentar mais. Só depois eu tomo um remédio.

O médico respondeu:
-- E aí como é o seu dia nessas condições?

A minha resposta estava na ponta da língua:
-- Uma droga. Eu passo o dia todo podre, tentando lidar com aquela dorzinha para evitar o remédio. Chego no final do dia destruído de cansado.

O médico retrucou:
- Você está errado. Dor é ruim, você não deve sofrer. Quando sentir um primeiro sinal de dor, tome logo um remédio e não sofra. Não fique sofrendo, não precisa disso. Toma esse remédio aqui quando começar a sentir dor. E agora vamos ver outras coisas que podem estar causando isso tudo, mas não deixe de tomar o remédio ao primeiro sinal de dor.

Enfim, o médico foi muito enfático nesse ponto.

Por que estou contando esta história?

Demorar para tomar uma decisão, tolerar demasiadamente, sofrer, enrolar alguém ou se auto enrolar, tudo isso entra na categoria de procrastinação. E nós fazemos isso (desculpe se coloquei você nessa!!) constantemente na comunicação empresarial, especialmente em relações públicas onde misturamos procrastinação com "reza forte". Ou seja, a gente torce para tudo dar certo.

Procrastinar na comunicação empresarial funcionava muito bem na década passada, quando não existiam a internet, as mídias sociais e a comunicação em tempo real. A comunicação externa quase sempre dependia da imprensa, portanto o jogo era saber se relacionar e lidar com a imprensa, desenvolver bons relacionamentos com jornalistas importantes e guardar algumas pepitas de ouro de comunicação para soltar na hora mais conveniente.

Na era das mídias sociais tudo é online e as notícias navegam na "velocidade da luz". Acabou a tal hora conveniente. Posts, tweets e toda sorte de comunicação imediata populam a web a cada segundo. Portanto, a comunicação mudou de paradigma. Se posicionar rapidamente pode ser mais importante do que esperar para construir a melhor mensagem. Em tempos de internet, uma resposta rápida pode ser melhor que uma resposta excelente demorada.

O livro "Marketing e comunicação em Tempo Real" fala exatamente sobre isso. São 248 páginas que mudam a nossa cabeça. Mudar essa mentalidade deve fazer parte da agenda de qualquer profissional da área que se formou e se desenvolveu sob conceitos antigos que estão caindo por terra. Entender essa mudança e assumir a responsabilidade da transformação dentro da organização passa a ser condição básica para um profissional de sucesso.

E aí? Tem procrastinado muito?

Texto publicado no Nós da Comunicação

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Folha demite jornalistas após comentários no Twitter

Os casos de demissão, ação judicial e mal entendidos por conta das redes sociais continuam a acontecer rotineiramente. Alguns ganham repercussão na mídia, como o recente caso dos jornalistas Alec Duarte, da Folha, e Carolina Rocha, do Agora SP, que foram demitidos devido a comentários considerados inapropriados pelo Grupo Folha a respeito do trabalho de imprensa na cobertura da morte de José Alencar, ex-vice-presidente da República.

Eu não pretendo descrever o caso nesse post. Visite esse link AQUI e conheça os detalhes no bom artigo publicado no IDG Now.

Um dos dilemas atuais das empresas a respeito das redes sociais é que elas potencializam as conversas entre seus colaboradores, tornando públicas as opiniões, interesses, conflitos e devaneios. Isso não acontece quando tais conversas ocorrem nos corredores, no cafezinho ou no almoço de fim de semana com os amigos. Já nas redes sociais elas ficam anotadas para a posteridade, com dia e hora marcados, ganhando pernas e visibilidade.

A discussão da fronteira entre o ser pessoal e o ser profissional nas redes sociais ganha espaço dentro das empresas, mas a sensação é que essa conversa está apenas no início. Existem muitos pontos de vista distintos e ninguém se sente com total razão e segurança para apresentar uma fórmula mágica. Nessas horas, deve imperar o bom senso e o sentimento de "preservação da espécie". Vou compartilhar o meu exemplo pessoal com vocês. Eu, às vezes, sinto uma vontade enorme de postar nas redes sociais a minha opinião sobre algo ou reclamar de algum serviço. Nessas horas, eu paro para pensar e, quase sempre, quando estou na dúvida, desisto de postar. Às vezes, me frustro, sinto que alguém me calou; outras vezes, penso que fui conservador demais na decisão, mas o real fato é que, no fim do dia, eu continuo empregado, mantendo meus amigos e tendo um sono tranquilo.

A fronteira entre o pessoal e o profissional é algo individual. É difícil estabelecer regras. Como você avalia o caso dos jornalistas citados acima? Qual é a sua opinião? Eu estou certo de que alguns avaliarão que o Grupo Folha foi muito rígido, outros acharão que o melhor é sempre "cortar o mal pela raiz", como disse um colega meu. O fato por trás disso é que, de maneira geral, os principais grupos nacionais de comunicação já têm políticas estabelecidas para uso das redes sociais pelo corpo editorial. Em 2009, eu mesmo publiquei um post onde comentei as iniciativas de O Globo e da Folha nessa área. Veja AQUI.

Os casos de demissão de funcionários por conta de escorregadelas nas redes sociais só vêm aumentando. As empresas estão mais atentas e criando mecanismos para rastrear a web em busca do que andam falando a respeito de sua marca e produtos. Muitas vezes, no meio desse processo, que tem a função de "escutar" o mercado, acaba aparecendo alguma citação ou escorregão de algum funcionário.

A pesquisa "Outbound Email and Data Loss Prevention in Today’s Enterprise, 2010", publicada pela Proofpoint no segundo semestre de 2010, cita que 24% das empresas pesquisadas aplicaram alguma ação disciplinar em funcionários que violaram as políticas de uso de blogs (o número cresceu em relação ao índice de 2009, que foi de 17%). E 11% das organizações reportaram que demitiram empregados por tal violação (o número de 2009 foi 9%).
Ou seja, os números são crescentes comparados aos números de 2009, que já eram superiores a 2008.

Acesse o interessante estudo da Proofpoint AQUI (você vai ter que responder a um breve questionário para ter acesso imediato em seguida).

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lições de RP na crise da BP

Lembro bem de um whitepaper chamado “Social Media: Embracing the Opportunities, Averting the Risks”, publicado nos EUA, que apontou que apenas 13% dos executivos pesquisados disseram que seus planos de comunicação para crises incluem as redes sociais. Sempre que lembro disso eu acabo pensando na crise da BP - British Petroleum.

A crise eclodiu em 20 de abril, quando a plataforma Deepwater Horizon da BP explodiu matando 11 trabalhadores e liberando milhões de galões de petróleo nas águas do Golfo do México. Além do imenso prejuízo financeiro - a BP tenta até hoje limpar o petróleo vazado e controlar o vazamento - existe também o imenso prejuízo de imagem, que certamente vai manchar a reputação da empresa por muito tempo. Desde então eu tenho acompanhado dezenas de análises a respeito da atuação da comunicação da empresa no tratamento da crise. Eu gosto mais de escarafunchar os blogs internacionais sobre o tema pois sempre tem alguém comentando o caso através de um prisma diferente.

Sendo racional, aqui entre nós no pé do ouvido, é muito fácil analisar o caso estando fora do caldeirão. Duro é tomar as decisões estando no olho do furacão da crise. Imagine-se como o gestor de comunicação da BP. Portanto eu sempre tomo muito cuidado com os analistas de plantão, que muitas vezes falam mais sob o ponto de vista acadêmico/conceitual do que com a visão prática/real do caso. O fato é que, até hoje, eu só ouvi críticas em relação a atuação da BP em suas relações públicas. É dificil encontrar alguém com críticas mais amenas, a maioria pega pesado e qualifica a estratégia de comunicação da empresa como um verdadeiro fracasso.

Acredito que os profissionais de comunicação e relações públicas deveriam acompanhar o caso para tirar algumas lições de toda essa terrível experiência. Eu, particularmente, estou muito interessado no que vem rolando nas redes sociais.

Depois de muito ler, compartilho abaixo dois posts interessantes.

O primeiro é no blog Comunicação & Crise, no post "Gestão de crise da BP falha e mancha reputação". O post é interessante e cita alguns números do caso nas redes sociais.

O outro post eu encontrei no blog Media Shift. Assinado por Ian Capstick, o post foi publicado dias atrás e chama-se "5 Digital PR Lessons from BP's Oil Spill Response". Ele aponta algumas lições de RP tiradas da crise da BP e uma lista de 15 artigos muito relevantes sobre as ações da empresa para tratar da crise na área de comunicação. Achei bem legal.

De todas as lições citadas por ele, tem uma específica que me incomoda. É a lição 2: "One vs. many spokespeople". Ele diz que a estratégia de concentrar a comunicação num único porta-voz é uma estratégia equivocada. Não sei não. Numa crise, onde os elementos e fatos mudam a todo instante, onde influenciadores e a grande mídia estão de prontidão, é muito desejável concentrar a comunicação com a sociedade numa única voz. É muito conveniente que o mercado identifique uma "cara" para a empresa, que essa voz tenha presença constante, com disponibilidade, transparência e pragmatismo. Este é um caminho já testado em outras crises empresariais que se mostrou adequado para cuidar do relacionamento com a imprensa e sociedade. Por outro lado, como tratar as centenas e milhares de mensagens nas redes sociais? Como respondê-las? Um único porta-voz não dá conta disso. Esta não é uma resposta fácil. Uma saída seria convocar algumas dezenas de funcionários da empresa, preferencialmente mais seniores, que deveriam ser treinados e informados diariamente dos fatos e decisões da empresa para entrarem nas redes como representantes da empresa, não necessariamente para estabelecer um diálogo, mas para atuar como porta-vozes do que a empresa vem fazendo e esclarecer os fatos. Mas tenho que confessar, não é fácil não. Na teoria é fácil. Como já disse um chefe meu do passado: "tudo no papel e no powerpoint fica fácil, duro é quando o chefe diz que concorda e você tem que fazer acontecer".

Enfim, se você trabalha em comunicação, prepare-se para enfrentar crises de imagem. Seja um estudioso do assunto, no mínimo um curioso, mesmo que você considere remota a possibilidade de ter de encarar uma crise pela frente. Se deseja uma recomendação, eu sugiro fortemente o livro "Crises Empresariais com a Opinião Pública" de Roberto Castro Neves (RCN). O livro é repleto de casos e merece ser guardado na gaveta da mesa de trabalho para consulta e referência. Não deixe de ler o caso do "Infarto do Edgar", nas páginas 159 e 160, que na minha opinião é a essência do livro. A história pode ser resumida neste pequeno fragmento de texto: "Quanto mais decisões foram tomadas antes da crise, melhor. Tome a decisão e coloque no freezer. Quando precisar dela, ela já está lá, é só requentar. Quando se tem um planejamento, isto é possível". O livro é para todo profissional de comunicação ter como referência, e até como manual de primeiros socorros.

Dentro da linha do "ser curioso", que tal seguir o twitter oficial da BP e ver o que ela vem publicando? Acesse aqui: www.twitter.com/BP_America

Para fechar o post, se você trabalha em comunicação numa média ou grande empresa, tenha consciência de que numa crise o golpe pode vir de onde você menos espera e nas mais diversas formas... como esse vídeo aí embaixo, ó!



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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

RP 2.0 - O jornalista quer conteúdo digital?

Gostei muito do post "Vale a pena criar conteúdo multimídia?" no Peixe Fresco. Este assunto de RP 2.0 é um tema constantemente conversado nos fóruns de comunicação e ainda soa um ponto de interrogação pra mim. Sugiro você ler o post no Peixe Fresco antes de seguir em frente.

Minha questão é: até que ponto vale a pena as empresas criarem conteúdo multimídia para os jornalistas? Concordo integralmente quando Rodrigo (no Peixe Fresco) escreveu que é preciso pensar na efetividade da mensagem e que o conteúdo multimídia traz infinitos recursos versus o tradicional release de cinco parágrafos. Também é evidente que produzir este tipo de conteúdo é muito trabalhoso e consome tempo, ou seja, é caro. A minha grande dúvida é se os jornalistas realmente querem e valorizam isso.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Gay Talese: "O governo usa a imprensa mais do que a imprensa usa o governo"

Dias atrás, eu publiquei um post a respeito de um debate que acompanhei na CBN sobre jornalismo versus liberdade para fiscalizar o governo. A respeito desse tema, eu recomendo a leitura da entrevista do jornalista e escritor Gay Talese para a revista Veja, edição 2117 de 17/06/09, páginas 86 a 89. Você pode ir no online, mas a matéria completa se encontra somente na edição impressa. Acesse AQUI o Acervo Digital da Veja para ler a matéria completa (tem que procurar a edição 2117).

Diferente do clima que rolou no painel da CBN, Talese não poupa a imprensa nessa relação imprensa e governo. Ele disse: "O governo usa a imprensa mais do que a imprensa usa o governo. Hoje, devemos ter uns 10.000 repórteres em Washington. Há uma civilização inteira de jornalistas em Washington. Se eu dirigisse um jornal, eliminaria de 50% a 60% da sucursal de Washington e mandaria os repórteres para outros lugares do país, para Califórnia, Nebraska, Flórida. Sabe o que aconteceria? Estaríamos tirando a ênfase sobre o governo e neutralizando sua capacidade de controlar o discurso político. Em vez de ficarmos segurando o microfone para o governo falar, estaríamos trazendo notícia sobre como as decisões do governo são percebidas e como são sentidas longe de Washington. Isso é vida real. É cobrir os efeitos das medidas do governo sobre a economia".

Gay Talese também fala uma frase que resumo bem essa história de crise na mídia: "A crise é dos jornais - e não do jornalismo". Ou seja, o jornalismo vai continuar existindo com ou sem jornais impressos. Veja as palavras de Talese: "As pessoas esquecem que os jornais vão e vêm. O jornalismo, não. As pessoas vão sempre precisar de notícia e informação. Sem informação não se administra um negócio, não se vende ingresso para o teatro, não se divulga uma política externa. Todos os dias, nos jornais das cidades grandes ou pequenas, repórteres vão à rua para fazer o que não é feito por mais ninguém".

E ele fala também sobre a internet:
"Com as novas tecnologias, e sobretudo com a criação da internet, o público hoje é informado de modo mais estreito, mais direcionado". "A internet é o fast-food da informação. É feita para quem quer atalho, poupar tempo, conclusões rápidas, prontas e empacotadas. Quem se informa pela internet, de modo assim estreito e limitado, pode ser muito bem sucedido, ganhar muito dinheiro, mas não terá uma visão ampla do mundo".

Enfim, eu não concordo com tudo que ele diz. Mas gosto de ler esses caras pois eles me fazem pensar. Estou indo hoje para Paraty, no Rio de Janeiro, para FLIP. Esse cara, Gay Talese, vai estar lá. Vamos ver se ele fala mais alguma coisa.

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terça-feira, 23 de junho de 2009

Debate sobre Jornalismo na CBN

No dia 15/6 o programa "Notícia em Foco" da CBN conduziu um painel, ao vivo, com o título: "O risco de o papel do jornalismo de fiscalizar o poder e denunciar abusos estar ameaçado". Participaram do debate dois jornalistas experientes e conceituados: Clóvis Rossi e Eugênio Bucci.

Eu não gostei do tema do painel pois vivemos a época de maior abertura e liberdade de opinião no país. As novas tecnologias, como blogs e redes sociais, vêm alavacando ainda mais esse ambiente aberto de debates e troca de ideias. Acho que não faz sentido essa discussão de cerceamento do jornalismo pois existem temas muito mais relevantes e interessantes para debater. O que realmente me fez continuar acompanhando o painel foram os momentos de conversa a respeito do jornalismo versus novas mídias.

Eis 3 flagrantes que pincei do debate:

Momento 1: (aos 13min00seg)
Num determinado instante, um dos jornalistas entrevistados disse que tinha 3 restrições fundamentais em relação aos blogs. Abaixo você encontra alguns fragmentos:
1- O blog: "é basicamente uma conversa de nós com nós mesmos"; "não é um diálogo"; "é um monólogo"; "é o contrário da pluralidade"; "não é um debate de ideias".
2- a segunda restrição eu não entendi. Já ouvi várias vezes e não entendi o que o jornalista quis dizer. Agradeço quem me esclarecer.
3- "Se um blog me recomendasse, no ano passado, que investisse no banco Lehman Brothers, quem é que eu processaria se eu realmente seguisse esse conselho?"

Momento 2: (aos 23min46seg)
No meio da conversa surgiu uma pergunta: "Quem paga os blogs?"

Momento 3: (aos 40min15seg)
A conversa entrou no assunto blog da Petrobras e um dos jornalistas disse achar um absurdo a Petrobras ter contratado pessoas e agências para ajudar a empresa a enfrentar a CPI. Ele disse: "O fato de ter se mobilizado dessa maneira para enfrentar uma CPI, que é uma coisa que deveria ser corriqueira e banal se a empresa é sólida. Se a empresa é séria, ela vai passar no teste e até sair reforçada. Toda essa mobilização é que me fez desconfiar do que eu não desconfiava antes, que a Petrobras tem alguma coisa para esconder".

Eu tenho algumas observações a respeito.

O painel seria muito rico se os organizadores tivessem convidado um blogueiro sério para participar do debate. Isso daria a pluralidade que eles tanto comentaram ao longo da conversa. Por não ter um contra-ponto, a conversa acabou ficando tendenciosa e mais do mesmo.

Eles entraram em assuntos que não dominam. Por exemplo, um dos jornalistas disse estranhar a mobilização da Petrobras frente à CPI. Essa visão é típica de quem nunca trabalhou em comunicação empresarial. Eu nem vou perder meu tempo aqui citando o quanto uma crise impacta uma empresa, especialmente uma do porte da Petrobras. Eu já enfrentei várias crises nas empresas onde trabalhei, numa delas eu passei pela experiência de ter a empresa citada numa CPI (foi bem de leve e nada parecido com a Petrobras) e sei bem o que isso afeta os negócios e o relacionamento da empresa com seus colaboradores, clientes e sociedade como um todo, especialmente imprensa.

O painel da CBN serviu para reforçar uma das percepções que tenho: alguns jornalistas ainda têm dificuldade de entender e lidar com as novas mídias. Eles discutiram também a respeito do futuro do jornalismo, e isso foi bom. Foi dito que as mídias sociais não vão acabar com o jornalismo. O que existe, na verdade, é um desafio de modelo de negócio para as mídias que hoje dependem do jornal impresso.

Acesse AQUI o debate inteiro (tem intervalos de comerciais e notícias no meio).

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

"Proficional" de Comunicação

A queda da obrigatoriedade do diploma para exercer o jornalismo gerou um monte de discussões. Já li um monte de análises diferentes, mas a que mais gostei foi a do Edu Vasques no Pérolas. Acho que ele foi direto ao ponto, abusando da franqueza e do pragmatismo tradicional. Vale muito ler. Acesse AQUI.

Gostei também da análise de Miriam Leitão, em sua coluna do último sábado. Concordo com 100% do que ela escreveu. Veja AQUI. Separei três trechos:
"O que acabou foi a reserva de mercado. Não acabou a necessidade de qualificação, de aprendizado, de domínio da técnica, de acumulação do conhecimento para ser jornalista".
"Os cursos de graduação e pós-graduação continuam a existir nos Estados Unidos, mesmo sem haver obrigatoriedade. Alguns com prestígio mundial, como os da Columbia. Na Alemanha, as emissoras de televisão selecionam profissionais de várias áreas e os treinam em cursos internos".
"Quem entender que a hora é de estudar menos, ficará para trás".

Acho que, no fim das contas, em função da realidade nua e crua citada por Edu Vasques, a queda da exigência do diploma não vai mudar nada. As empresas ainda terão que decidir se querem um profissional ou um "proficional".

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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Blog da Petrobras - O que pensam os editores

O "combate" entre o blog da Petrobras "Dados e Fatos" e a imprensa parece que está chegando ao fim, pelo menos deve sumir das manchetes dos jornais. Cada um cedeu um pouquinho, assim ninguém precisa pedir desculpas prá ninguém, e tudo se resolve. Mas a discussão a respeito dessa experiência vai continuar.

Os jornais não sabiam o que fazer depois que exageram na dose da reação contra o blog. Notadamente eles erraram a mão ao espernear desmedidamente em seus editoriais (veja abaixo) e reportagens. Parte da mídia ainda não entendeu que as ferramentas de comunicação 2.0 estão invertendo completamente o jogo, dando ao leitor a autonomia de buscar a informação quando e na forma que bem entender, editada ou não. E que o jornal, como conhecemos, continuará a ser um veículo importante de comunicação, mas não o único e nem tão imprescindível para a sociedade como uma década atrás.

Já a área de comunicação da Petrobras sabia que tinha que fazer alguma coisa. A iniciativa de lançamento do blog foi brilhante, mas faltou "manha". Faltou introduzir o blog de forma mais lenta e ajustada à dinâmica das relações com a imprensa. Manter um clima de prontidão diária contra a mídia não é interessante para a empresa, aliás, para ninguém. Como fazer para dar um passo para trás?

A decisão da Petrobras de não mais publicar no seu blog as perguntas feitas por jornalistas, e as respostas dadas pela empresa, um dia antes de as reportagens serem publicadas é inteligente e cria a situação de acordo que todos queriam. Todos estavam esperando uma oportunidade para abaixar as armas.

Segundo a coluna de Mônica Bergamo na Folha, "a decisão foi tomada depois de reuniões feitas pela equipe de comunicação da Petrobras. Muitos dos presentes concluíram que a forma adotada pelo blog, de divulgar os questionamentos antes mesmo da publicação das matérias pelos jornais, foi desastrosa. Outra parte da equipe, no entanto, não queria recuar completamente da ideia para que não parecesse que a empresa capitulara à reação da mídia. Chegou-se a um meio termo: as perguntas dos jornalistas e as respostas a elas só serão postadas no blog à meia-noite, para evitar que publicações que concorrem entre si tomem conhecimento antecipado das reportagens que serão publicadas por outros veículos". Veja AQUI.

O blog da Petrobras foi discutido intensamente nos últimos dias, em todos os fóruns. Todo mundo entrou na discussão. Até o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, resolveu se pronunciar. Veja o artigo dele, chamado "Porque os blogs assustam", AQUI.

Se você que ver uma análise bem equilibrada e justa, eu recomendo a leitura do excelente artigo escrito por Claudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, em seu blog. E vale ler as dezenas de comentários. Acesse AQUI.

Mas o motivo deste post é compartilhar o artigo "O que pensam os editores" publicado ontem no site do Observatório de Imprensa. Veja AQUI. O artigo contém depoimentos recebidos por Ricardo Noblat e publicados em seu blog, todos referentes ao blog da Petrobras. Tomo a liberdade de publicar o artigo inteiro, marcando em vermelho algumas partes que me chamaram a atenção. Não pretendo comentá-las, cada um que tire suas próprias conclusões, mas afirmo que cada um dos trechos marcados mereceria um belo debate. O blog da Petrobras, mas do que trazer transparência e sacudir "o sistema", ajudou a entendermos melhor como funciona a cabeça dos principais editores e grupos de comunicação do país. Destaque para a afirmação de Ricardo Gandour, do grupo Estado: "A sociedade não pode prescindir da imprensa e dos valores da edição".

Reproduzido do Observatório de Imprensa, 11/06/2009

BLOG DA PETROBRAS - O que pensam os editores

Por Depoimentos a Ricardo Noblat em 11/6/2009
Reproduzido do Blog do Noblat, 9/6/2009

CENSURA CRIATIVA, MAS CENSURA
Euripedes Alcântara - diretor de Redação da revista Veja

Nem tudo que é legal é ético. A decisão da Petrobras de publicar em seu blog as perguntas dirigidas à empresa pelos jornalistas e respondê-las publicamente antes mesmo de saber como foram aproveitadas nas reportagens pode ter amparo jurídico.

Mas é claramente uma posição de força sem precedentes no convívio entre empresas privadas de mesmo porte e, ainda, mais violenta quando tomada por uma empresa que pertence ao povo brasileiro, seu controlador.

Uma posição de força dessa natureza, a meu ver, só faria sentido se fosse iniciativa de uma nação estrangeira contra jornalistas brasileiros em uma situação de guerra externa. Não é esse o caso.

Uma medida sadia seria gravar as entrevistas concedidas à imprensa por seu presidente e seus diretores e, uma vez constatada que a edição desfigurou a mensagem original ou colocou as informações fora de contexto, dar publicidade à íntegra da conversa com a ênfase nos trechos suprimidos ou desfigurados.

Atropelar a apuração jornalística é uma forma de censura, muito criativa, sem dúvida, mas censura.

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DESELEGÂNCIA E INTIMIDAÇÃO
Sergio Lirio - redator-chefe da CartaCapital

Publicar as perguntas dos jornalistas antes de o material ser publicado nos respectivos veículos é mais do que um ato de deselegância. Cheira um pouco a intimidação, incompatível com uma empresa que afirma não temer as investigações.

Inútil, em todos os casos, pois acaba por gerar um noticiário negativo à empresa, justamente o que os estrategistas de comunicação da Petrobras almejam evitar.

Mas será perfeitamente normal, e salutar, se a companhia utilizar o blog para publicar a íntegra das perguntas e respostas após o material sair publicado ou prestar esclarecimentos adicionais a respeito de uma determinada notícia. Principalmente se a edição sonegar ou distorcer informações prestadas.

Sabemos que durante CPIs a imprensa costuma fazer o contrário do que deveria: torna-se menos e não mais criteriosa e vigilante na seleção e divulgação dos fatos, sob a desculpa das pressões da competição pelo furo, além de frequentemente se deixar usar por interesses particulares ou eleitorais travestidos de interesse público.

Outro comportamento bastante comum da mídia nesses momentos é ignorar com mais frequência seus erros e não conceder a um indivíduo ou empresa atingidos o devido espaço de retratação.

Misturados à manada que alegremente pisoteia o bom senso, as regras básicas da profissão e a autonomia do pensamento (que deveria nortear um jornalista do raiar do dia ao fim da jornada diária), repórteres, editores e veículos sentem-se mais confortáveis para cometer aleivosias e assassinatos de reputação ou para reproduzir erros alheios sem se dar ao trabalho da checagem.

Quem já foi injustamente alvejado por CPIs sabe bem o que isso representa. No caso de uma companhia com ações nas Bolsas de Valores, milhões de dólares em contratos e sentada sobre reservas espetaculares de gás e petróleo, os prejuízos podem ser incalculáveis e irreversíveis.

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UM ERRO, UM ABUSO, UM DISPARATE
Luiz Antonio Novaes - editor-executivo de O Globo, responsável pela edição da 1ª página

O risco de vazamento é inerente à atividade jornalística. Não é de estranhar que um repórter tope com um personagem que, na impossibilidade de impedir a publicação de uma denúncia, torne-a pública , a seu modo, antes que ela seja bem concluída e documentada.

O que é surpreendente e sui generis, nunca antes visto na história desse país, é que uma instituição do porte da Petrobras anuncie que o vazamento será a praxe do seu relacionamento com a imprensa.

É fácil entender que, em épocas de CPI, os furos jornalísticos incomodem mais do que as investigações parlamentares, sempre sujeitas ao jogo político. Mas não é possível que a Petrobras, desconhecendo regras elementares do jornalismo e do trabalho de assessorias de imprensa, seja tão ingênua a ponto de achar que vai acabar com o furo por decreto.

A "reinvenção" do jornalismo vem à tona uma semana depois que a estatal, apesar de possuir mais de mil profissionais de comunicação em seus quadros, preferiu contratar uma empresa externa para enfrentar a CPI.

A lógica que agora move a direção da empresa parece não ser mais a da comunicação, mas a do marketing político. Nele, como vimos à exaustão nas últimas campanhas eleitorais, a imprensa precisa ser desqualificada e demonizada como inimiga política.

O que podem estar querendo, atropelando a ética dessa forma, é tumultuar e impedir a reportagem, para supostamente provar que, no jornalismo, tudo é opinião. É um erro, um abuso e um disparate – que merece o repúdio de todos.

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O QUE É INADEQUADO
Otavio Frias Filho - diretor de redação da Folha de S. Paulo

A Folha de S.Paulo considera que o teor do blog "Fatos e Dados" está na esfera de autonomia empresarial da Petrobras. Não considera adequado, porém, que questionamentos jornalísticos endereçados à empresa sejam tornados públicos por meio daquele blog antes que as respostas possam ser avaliadas e utilizadas pelos veículos que enviaram as interpelações.

***

UM MAL ENTENDIDO A SER CORRIGIDO
Ali Kamel - diretor-executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo

Todos nós que trabalhamos em redações de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e sites da internet temos a noção exata do valor de uma informação exclusiva: revelar um fato em primeira mão é um atributo da qualidade do trabalho jornalístico, que o público reconhece e valoriza. Não há "nova era" que modifique isso. Mesmo um site jornalístico, que publica notícias em tempo real, quer ser o primeiro a dar um furo, porque sabe que, se isso for uma constante, atrairá cada vez mais pessoas que buscam bom jornalismo. Isso é uma verdade aqui e em toda parte do mundo.

No trabalho cotidiano, no contato com as fontes, procura-se deixar isso bem claro, especialmente para aqueles que não conhecem a dinâmica do trabalho da imprensa, geralmente cidadãos comuns ou pequenas e médias empresas sem departamentos de comunicação estruturados. Nestes casos, explica-se também que as entrevistas fazem parte de um processo de apuração, que pode ou não levar à publicação de uma reportagem. Na maior parte das vezes, isso é bem entendido.

Quando são grandes empresas, de reputação sólida, a explicação costuma se absolutamente desnecessária: elas conhecem a seriedade dos órgãos de imprensa, sabem que o propósito deles é informar bem e não vêem problemas em guardar sigilo. Mesmo quando o assunto não é agradável, mesmo quando se trata da investigação de alguma denúncia. As grandes empresas sabem que, não havendo culpa, dolo, má-fé, basta dar as explicações.

Os problemas só acontecem quando a fonte, objeto da denúncia, não tem confiabilidade: neste caso, todo tipo de sabotagem é posto em marcha. Se houvesse uma regra geral, ela deveria ser formulada assim: quanto menos caráter e mais culpa tem a fonte, menor é a probabilidade de um órgão de imprensa, ao ouvi-la, conseguir manter a exclusividade da informação. Em muitos casos, tenta-se até a censura por meios de ações no Judiciário.

Evidentemente, esse nunca foi o caso da Petrobras, uma empresa que mantém com a imprensa, historicamente, uma relação altamente profissional, absolutamente correta, ética e desapaixonada. Neste governo e nos anteriores, prestou sempre todo tipo de esclarecimento quando solicitada, respeitando invariavelmente o princípio da exclusividade.

A Petrobras, uma empresa que detém informações estratégicas, que, por força de regulamentos, devem ser mantidas em sigilo para não privilegiar ou prejudicar investidores, sabe, como poucas, como lidar com a imprensa. Eu não posso atribuir a outra coisa senão a um brutal mal-entendido essa decisão de tornar públicas as consultas dos órgãos de comunicação antes que os mesmos façam uso das informações obtidas por meio delas.

Após a publicação da reportagem, a Petrobras e qualquer outra empresa, se assim considerar necessário, podem tornar pública a íntegra das respostas. Não há mal nenhum nisso: jornalista algum se oporá a íntegras. Antes da publicação, porém, íntegras serão sempre uma atitude de desrespeito, não a veículos específicos, mas à imprensa, uma instituição que, numa democracia, deve ser sempre prestigiada.

Mal entendidos acontecem, e são corrigidos. Não tenho dúvidas de que a Petrobras, após refletir sobre a questão, porá fim à prática.

***

O FALSO ANTAGONISMO
Ricardo Gandour - diretor de conteúdo do Grupo Estado de S. Paulo

A Petrobras – tenho convicção, não por má fé, mas por falta de compreensão e aprofundamento de um assunto complexo e contemporâneo – caiu numa armadilha conceitual que foi a de achar que a sociedade pode prescindir da edição.

Isso fica claro quando ela diz que a blogosfera permite o contato direto com as fontes de informação sem a necessidade de um filtro. É o mesmo que desistitucionalizar a imprensa.

A sociedade não pode prescindir da imprensa e dos valores da edição.

A Petrobras dá a entender que o sigilo que a imprensa precisa para uma apuração se contrapõe à transparência.

Ora, o sigilo é transitório. Ele faz parte de um método de trabalho que sustenta a construção de um contexto em uma apuração completa. Culmina na transparência total.
Criar um antagonismo entre o sigilo da apuração e a transparência é falso. E pode, em último caso, jogar a opinião pública contra a imprensa, o que não é produtivo nem para a sociedade como um todo nem para a democracia.

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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Blog da Petrobras - A discussão está apenas começando

Tenho acompanhado as discussões sobre o blog da Petrobras - Dados e Fatos e quase todas são emocionais e extremadas. Na maioria das vezes, as pessoas defendem avidamente um dos lados, como se houvesse um combate entre Petrobras e mídia. Os blogueiros, com certeza, louvam a Petrobras pela coragem e ousadia (é só entrar no blog da Petrobras para ver os comentários emocionados). Os veículos de imprensa, em bloco, dizem que o blog da empresa está agindo de forma errada, para não dizer não ética.

O editorial do O Globo de ontem mostra a gravidade dessa situação. Ele cita "O ataque da Petrobras à imprensa", veja AQUI.

Já a ANJ, publicou um comunicado chamado "ANJ se manifesta contra a Petrobras" e já abre o texto dizendo "A Associação Nacional de Jornais (ANJ) manifesta seu repúdio pela atitude antiética e esquiva com que a Petrobras vem tratando os questionamentos que lhe são dirigidos pelos jornais brasileiros". Acesse AQUI.

A Petrobrás através de seu blog, respondeu a ANJ, dizendo que "A Petrobras reafirma que, assim como os veículos de comunicação, defende a livre e ampla circulação de idéias, informações e conhecimento". Veja AQUI.

Eu ainda não vi muitos comentários das assessorias de imprensa, mas me parece que elas ainda estão tentando entender o cenário. Eles entendem o dilema da imprensa, mas também sabem que o mundo dos blogs é poderoso, crescente e um excelente canal de comunicação das empresas com o mercado e o consumidor. É um caminho inevitável. Um dia, TODAS as empresas terão um ou mais blogs, algumas já estão saindo na frente.

Edu Vasques, em seu blog Pérolas das AIs, escreveu algumas vantagens evidentes do blog da Petrobras, entre elas comunicação direta com o público e exposição de maneira clara da versão dos fatos da empresa, sem possíveis distorções da mídia. Acesse AQUI.

Por outro lado, o Azenha em seu blog Vi o Mundo, publica 10 razões porque os jornais investem contra o blog da Petrobras, sendo a primeira: porque perdem o "monopólio da informação" e, com isso, autoridade sobre o público. Veja AQUI.

A grande questão é a EMOÇÃO e o RADICALISMO existente em todas essas discussões. O grande ganhador nisso tudo é o cidadão, como eu e como você, pois a Petrobras através desse blog perturba "o sistema". E isso é saudável, independentemente do resultado final. Mas acho que a Petrobras e a imprensa saem perdendo ao manter esse clima de hostilidade, pois o desgaste é evidente e recuperar algumas relações poderá tomar tempo.

A Petrobras tem que pensar muito bem em como vai conduzir sua relação com a imprensa a partir dessa novidade do blog. Fico imaginando que devem estar rolando dezenas de reuniões internas para discutir os próximos passos. Certamente algumas das considerações abaixo devem estar sobre a mesa:

- O blog da Petrobras pode atingir centenas ou milhares de pessoas;
- Os jornais atingem milhões, diariamente.

- O blog atinge somente aqueles que procuram o blog, ou seja, é o leitor interessado que procura o blog;
- Os jornais são pervasivos, vão em todos os lugares, atingem os interessados e os desinteressados. Um título quente, na capa, como aquele "80% das compras da Petrobras são feitas sem licitação", torna um desinteressado leitor num potencial interessado, num piscar de olhos. E podemos considerar que uma boa parte dos leitores fica só no título, tirando suas próprias conclusões sem se preocupar em entender o contexto.

- O blog é um canal de comunicação da empresa, portanto, conceitualmente, parcial;
- Os jornais formam um canal de credibilidade no país e supostamente são imparciais. Eu sei que existem muitos questionamentos a respeito dessa "tal" imparcialidade dos jornais, mas vale lembrar que os jornais pagos no Brasil têm uma média de circulação diária de 8,5 milhões exemplares (dado de 2008 segundo a ANJ, ver AQUI). É muito jornal...

Enfim, acredito muito na iniciativa do blog da Petrobras, mas não como um canal de alternativo ou de 'combate" ao tradicional canal da imprensa, mas sim como um canal complementar. Desenvolver e manter bons relacionamentos com a imprensa deve ser um objetivo constante da empresa. Por outro lado, é razoável esperarmos que a imprensa seja mais equilibrada e menos emocional nas suas análises em relação a Petrobras. Imparcialidade, pragmatismo e ética tem que nortear essa relação. A sociedade agradece.

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domingo, 7 de junho de 2009

Blog da Petrobras esquenta as relações da empresa com a mídia

Sob holofotes de uma CPI que parece um vagalume, vai e não vai, a Petrobras resolveu abrir um canal direto de comunicação com o público. A empresa lançou um blog, dias atrás, após ter sido bombardeada intensamente pelos principais jornais do país, com claro destaque da Folha, do Estadão e do Globo. O nome do blog denuncia seu objetivo: Dados e Fatos. A empresa diz que esse canal vai publicar fatos e dados recentes da Petrobras e seu posicionamento sobre as questões relativas à CPI.

No dia 31 de maio, os jornais publicaram longas matérias negativas sobre a Petrobras, muitas delas ocupando várias páginas. O Globo estampou o título "Muita política e ainda pouca transparência", afirmando que a Petrobras "faz 80% das compras sem licitação". No dia seguinte, dia 1 de junho, a Petrobras publicou um comunicado de 1/2 página, no mesmo jornal, esclarecendo as afirmações publicadas no dia anterior. O comunicado me surpreendeu pela veemência e pelo tom emocional. Veja AQUI.

No dia 3 de junho entrou no ar o blog Dados e Fatos. Acesse AQUI. O primeiro post foi suave, mas já do dia 4/6 em diante o blog começou a responder aos jornais. Foi o Globo, a Folha, o Correio Braziliense e até o Programa do Jô. Vale a pena percorrer os posts e ver os comentários.

Existe um evidente clima negativo entre a Petrobras e os jornais. Hoje, o GLOBO publicou uma matéria dizendo que: "nos últimos dias, o blog quebrou a confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa da estatal por jornalistas dos principais veículos de imprensa do país". Leia AQUI. É difícil prever os próximos capítulos desse caso, mas não é razoável que exista esse tipo de clima entre a imprensa e Petrobras, que é a sétima maior empresa de petróleo do mundo. Esse ciclo de insinuações e acusações não é bom prá ninguém.

Por fim, nesta segunda-feira, dia 8/6, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, estará no programa Roda Viva. Com certeza vão surgir perguntas sobre o relacionamento da empresa com os jornais. É bem provável que se fale também a respeito do blog. A entrevista será transmitida ao vivo na IPTVCultura – www.iptvcultura.com.br -, canal exclusivo da Cultura para exibição na web, a partir das 18h30, e exibida pela TV Cultura, às 22h10, sem qualquer corte ou edição.

(Incluído em 08/06/09)
Faz a gente pensar o que o Idelber escreveu no blog Trezentos num post chamado "O Blog da Petrobras e o desespero da mídia". Ele disse: "a inauguração do blog tem sido tratada, pela grande maioria, como uma verdadeira revolução e, por uma minoria ligada à mídia, como uma espécie de trapaça, de alteração das regras do jogo. Se a Petrobras agora publica a íntegra das perguntas que recebe, junto com suas respostas, os jornalões vão fazer o quê? Como vão esconder a fábrica de linguiças?" ... "o blog da Petrobras é um marco".

Interessante também o post "O fim da era das perguntas em off" publicado no Luis Nassif Online. Fala que o blog da Petrobras "encerra a era das informações seletivas para compor reportagens".

Enfim, a inciativa da Petrobras é louvável e abala a tradicional estrutura de relacionamento empresas e imprensa. Agora é acompanhar para ver no que dá.

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terça-feira, 26 de maio de 2009

Crises Empresariais - O livro de Roberto Castro Neves

Acabei de devorar o livro "Crises Empresariais com a Opinião Pública" de Roberto Castro Neves (RCN). Foi que nem Doritos, impossível comer um só. Foi começar e não parar mais.

Antes de falar do livro, não dá prá não deixar de falar do RCN.

Eu tive a sorte e o azar de ter trabalhado com Roberto na IBM Brasil, anos atrás. Sorte porque RCN era, e ainda é, uma das maiores autoridades de comunicação corporativa no país. O azar é pelo mesmo motivo. Uma autoridade desse calibre é exigente e detalhista, o que evidencia que um aprendiz de feiticeiro nunca teria, ou terá vida fácil, ao trabalhar com um perfil assim.

Roberto era um executivo centralizador e detalhista. Tinha um profundo conhecimento de comunicação empresarial, extremado bom senso, excelente domínio no relacionamento externo, especialmente com a imprensa, e grande liderança na empresa. Esta é a imagem que tenho dele. Cada interação com ele era uma aula.

Depois de um tempo, ficou claro para mim que eu precisava levar as coisas para ele de forma mais estruturada. Minha ansiedade e vontade de fazer coisas diferentes, muitas vezes me levavam a propor projetos incompletos e com riscos não calculados. Enfim, eu era um aprendiz do ofício.

O perfil de Roberto foi construído a partir de sua experiência na IBM Brasil. Ele comandou a área de comunicação da empresa durante muitos anos (até 1997, acredito eu), especialmente na época da “Política Nacional de Informática”. Talvez muitos não lembrem ou não saibam, mas teve uma época nesse país em que os maiores fabricantes de computadores do mundo não podiam fabricar no Brasil ou importar seus equipamentos. A justificativa é que, protegidas da concorrência com as multinacionais do setor (na época a liderança era da IBM, Burroughs, DEC e HP), os fabricantes brasileiros poderiam desenvolver uma tecnologia genuinamente tupiniquim e estariam plenamente aptos para competir em pé de igualdade com seus concorrentes estrangeiros quando a reserva de mercado terminasse. Foi a fase de empresas brasileiras como Cobra, Edisa e Itautec, essa última existe até hoje. Todo mundo sabe como essa história acabou, né?

Esse cenário transformou a IBM Brasil num enorme alvo de pancadaria vinda do governo e da imprensa. De repente, a IBM virou a Geni da vez. E foi o RCN, liderando Relações Externas, num papel muito mais abrangente do que meramente lidar com a imprensa, que enfrentou toda essa época com maestria e grande sucesso. Foram tantos anos lidando com uma crise latente e com assuntos delicados, que RCN tornou-se um líder centralizador e atento a tudo que acontecia, muitas vezes até desconfiado das coisas que chegavam a ele. Enfim, conto tudo isso pois a conjuntura nacional daquela época é que emolduraram a personalidade empresarial e a liderança de RCN.

O resultado é que RCN tornou-se uma das maiores autoridades de comunicação do país. Não é por acaso que ele é o Ombudsman da ABERJE e têm vários livros de referência publicados.

Feita essa pequena "longa" introdução, vamos ao livro.

O livro é imperdível para os profissionais de comunicação e gestores de empresa. Acho até que o livro vai muito além das crises empresariais, ele dá uma bela perspectiva do perfil da imprensa brasileira e do sempre delicado relacionamento dos executivos de empresas com a mídia. RCN usa e abusa de casos reais, internacionais e nacionais, e isso transforma o livro numa experiência riquíssima, provendo leituras diferentes sobre cada uma das crises apresentadas. O livro fica ainda mais valioso pois ele trabalha com muitos casos brasileiros conhecidos da mídia.

Tenho certeza que alguns não gostarão do estilo literário de RCN. Ele escreve como se estivesse tomando um chopp com a gente, numa mesa de bar. É quase uma conversa no pé-do-ouvido. Eu adoro isso, mas estou certo que tem gente que gosta de um texto mais formal e mais “quadrado”. Enfim, o estilo de Roberto nos leva a um bate-papo delicioso, que transforma um assunto sério numa conversa leve e divertida. É o jeito dele, pessoal, transposto para o livro. Muito bom.

Os capítulos 6 e 7 são o "crème de la crème" do livro, cujo conteúdo merece ser guardado na gaveta da mesa de trabalho para consulta e referência. Não deixe de ler o caso do "Infarto do Edgar", nas páginas 159 e 160, que na minha opinião é a essência do livro. A história pode ser resumida neste pequeno fragmento de texto: "Quanto mais decisões foram tomadas antes da crise, melhor. Tome a decisão e coloque no freezer. Quando precisar dela, ela já está lá, é só requentar. Quando se tem um planejamento, isto é possível".

Para ter um gostinho de como RCN aborda o tema, visite o seu site no endereço www.imagemempresarial.com e navegue pelos capítulos, especialmente o "Tudo sobre Imagem Empresarial" e "Crises Empresariais com a Opinião Pública", que contém alguns casos descritos no livro.

Enfim, o livro é para todo profissional de comunicação ter como referência, e até como manual de primeiros socorros. Também é recomendado para todos aqueles que têm contato com a imprensa, especialmente executivos de empresas e porta-vozes em geral. Do meu lado aqui, eu já vou tratar de colocar alguns exemplares na mesa de alguns executivos da companhia onde eu trabalho.
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